Não é um simples encerramento. É aquele instante suspenso em que o esporte desacelera, o ruído das competições se dissolve e resta apenas a narrativa. As Olimpíadas de Inverno de Milão-Cortina 2026 chegam ao último ato e, como frequentemente acontece, o final promete ser mais emotivo do que o início.
No domingo, 22 de fevereiro, enquanto as últimas medalhas encontram seus donos e os atletas começam a se transformar de protagonistas em memória, os olhos do mundo se voltarão para um lugar que dispensa apresentações: a Arena de Verona. Não um estádio moderno, não uma estrutura ultratecnológica, mas um anfiteatro romano que há dois mil anos assiste aos espetáculos da humanidade.
É ali que acontecerá o gran finale.
O título escolhido, Beauty in Action, já antecipa a filosofia do show: menos monumentalidade, mais ritmo. Menos ênfase celebrativa, mais narrativa. A ideia é transformar o anfiteatro em uma grande praça italiana, onde luzes, música e movimento dialogam com a pedra antiga. Uma cenografia fluida, inspirada na água, acompanhará a noite como uma metáfora evidente, porém eficaz: territórios diferentes, uma única corrente.
E então, ele.
Achille Lauro será o nome musical mais aguardado da cerimônia. Um artista difícil de rotular, capaz de atravessar gêneros, linguagens e identidades com uma naturalidade que frequentemente surpreende. Surgido na cena do rap romano, transformado ao longo do tempo em performer pop, glam, teatral, Lauro construiu uma carreira baseada em metamorfoses constantes. Não apenas canções, mas verdadeiros atos cênicos. Não só música, mas imaginário.
Sua presença na Arena carrega um significado particular: não um cantor convidado para preencher um segmento, mas um intérprete perfeitamente alinhado à proposta híbrida do espetáculo. Uma performance concebida para o espaço, para o lugar, para esse delicado equilíbrio entre contemporaneidade e história.
Antes de seguir para Sanremo, onde será um dos protagonistas do Festival, Lauro encerrará simbolicamente os Jogos.
Ao seu lado, a dança de Roberto Bolle, encarregado de traduzir a linguagem do corpo dentro do contexto olímpico, e a energia mais pulsante confiada a Gabry Ponte, nome que evoca imediatamente movimento, intensidade, vibração coletiva. No fio narrativo do espetáculo, também estará Benedetta Porcaroli, presença associada ao olhar contemporâneo e às novas gerações.
A cerimônia terá início às 20h00 no horário da Itália.
Para quem acompanha do Brasil, o espetáculo começa às 16h00 no horário de Brasília, será transmitida pela CazéTV e pelo SportTV. Quatro horas de diferença que, desta vez, não separam, mas conectam: Europa e América do Sul unidas no mesmo ritual global.
A duração prevista é de cerca de três horas e meia. Tempo suficiente para completar a transição mais delicada: do espírito competitivo para a dimensão simbólica.
Os atletas entrarão em cena, já não divididos por bandeiras, mas misturados como uma comunidade temporária. A bandeira olímpica será entregue à futura sede dos Jogos de Inverno de 2030. E então, inevitavelmente, chegará o gesto que nunca é apenas um gesto: o apagar da chama.
Não é apenas o fim de um evento esportivo.
É o momento exato em que as Olimpíadas deixam de ser presente e passam a ser memória coletiva. Quando as imagens deixam de correr ao vivo e começam a se fixar na lembrança.
E como todo final bem construído, o que permanecerá não será somente o espetáculo, mas aquela sensação sutil que acompanha cada despedida bem-sucedida: a certeza de que algo terminou e justamente por isso continuará existindo.

