Na semana passada, em Poggiardo, não chegou apenas um grupo de visitantes. Chegou um pedaço do Brasil. E, sem alarde, o Salento abriu espaço.
Dois professores vindos de Belo Horizonte, acompanhados por sete jovens, atravessaram o oceano para viver uma experiência que não tinha nada de turística. Hospedados pelo município de Vernole, participaram de um projeto de intercâmbio cultural favorecido pelo Consulado Brasileiro em Bari. Um projeto pensado não para mostrar, mas para conectar.
Poggiardo os recebeu sem necessidade de tradução.
Aqui, a história não se conta em voz alta: ela se percorre. Está escrita nas pedras, nas igrejas, nos palácios, nas ruas compactas que preservam o ritmo lento de uma comunidade agrícola moldada entre oliveiras e vinhedos. Uma dimensão que, para quem chega do Brasil, não é estranha, mas surpreendentemente familiar. Porque também do outro lado do Atlântico existem territórios onde a terra não é apenas trabalho, mas identidade .
Essa viagem cultural teve coragem de parar.
De escutar.
De deixar que os lugares falassem.
No Salento, a história emerge sem pedir atenção. Em Cutrofiano, por exemplo, a memória ganha forma na argila. Há séculos, essa terra molda a cerâmica como se molda uma biografia: com paciência, erros e recomeços. Já na época romana, os fornos contavam a história de uma comunidade capaz de transformar matéria em cultura. Uma linguagem universal, que o Brasil conhece bem, feita de artesanato, resistência e criatividade popular .
Em Castro, é o mar que dá sentido ao percurso. Voltada para o Adriático, a cidade sempre foi um ponto de contato entre mundos. Navios, mercadores, povos passaram por ali. Segundo a tradição, foi ali que Eneias desembarcou. Mito ou história, Castro continua representando a ideia da passagem, do encontro, da partida. Ao olhar o horizonte, é impossível não pensar no Atlântico e nas rotas que, séculos depois, ligariam a Itália ao Brasil por meio da imigração .
Ao lado do castelo, o Museu de Atena guarda outra verdade essencial: a Puglia sempre foi diálogo. O antigo santuário dedicado à deusa, ativo entre os séculos IV e II a.C., era referência para navegadores e comerciantes. Cerâmicas, inscrições e fragmentos arquitetônicos revelam um Salento já aberto ao mundo muito antes de existir a ideia de globalização .
E há Vaste, a antiga Bastae messápica. Um lugar que não busca atenção, mas a merece. Muralhas, necrópoles e ruas soterradas lembram que toda civilização é feita de camadas, de presenças sobrepostas, de povos que deixam marcas. O Brasil, terra construída por encontros e misturas, reconhece-se imediatamente nesse silêncio .
Na semana passada, este não foi apenas um roteiro cultural.
Foi um exercício de memória compartilhada.
O projeto apoiado pelo Consulado Brasileiro em Bari mostrou que a diplomacia mais eficaz não passa apenas por documentos, mas por pessoas. Pelos jovens que escutam, pelos professores que observam, pelos territórios que se contam sem espetáculo.
Em Poggiardo, ninguém foi apenas hóspede.
Todos fizeram parte da mesma narrativa.
E quando uma viagem consegue isso, ela não termina com a volta para casa. Ela continua, silenciosamente, em quem a viveu.

