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Em Florença, o sapateiro tinha nome, história e respeito

PorFrancesco Sibilla

10/02/2026

Existem ofícios que não morrem. Eles desaparecem lentamente, o que é pior. O sapateiro é um deles. Hoje ele é confundido com o remendão, os dois termos usados como sinônimos, como se contassem a mesma história. Não contam. Nunca contaram. E Florença, que construiu poder e identidade a partir dos ofícios, sempre soube disso.

Antes da industrialização, o sapateiro não consertava: criava. Era um escultor do caminhar humano. O termo vem do latim calceolarium, de calceus, sapato, derivado de calx, calcanhar. Um ofício tão central que no século XIX se dizia que era o mais próximo da escultura. Porque moldava matéria viva. Porque dava forma ao passo.

O remendão surgia depois. Mantinha, prolongava, salvava sapatos. Um trabalho humilde, mas essencial em uma sociedade onde calçados novos eram raros e caros. Funções diferentes, papéis sociais distintos, dignidades que o tempo acabou misturando.

Em Florença, essa distinção era lei. Desde o século XIII, os sapateiros organizavam-se em corporações rigorosas. Pagavam impostos como os burgueses, tinham peso político, regras severas. Até o couro era regulado. Criar era um privilégio. Remendar, uma necessidade.

Durante séculos, os gestos não mudaram. As ferramentas também não. O deschetto, a bigorna em forma de pé, o martelo, os punções, o fio de cerdas embebido em piche. Um vocabulário manual que atravessou o tempo quase intacto.

Hoje, os grandes mestres sapateiros quase desapareceram. Não por falta de talento, mas porque o mundo deixou de ter paciência para o tempo longo. Sobrevive o remendão, que se adaptou: máquinas, novos serviços, rapidez. Resistência prática.

Ainda assim, Florença guarda exceções. Nomes como Stefano Bemer e a herança de Salvatore Ferragamo mantêm viva a ideia do sapato como cultura, não como produto. Não é por acaso que, em 1999, Daniel Day-Lewis escolheu essa cidade para desaparecer. Trabalhou em silêncio numa oficina, protegido pelo bairro, longe do espetáculo. Enquanto o mundo o chamava de volta, ele aprendia a costurar couro.

Talvez seja isso que reste hoje: menos distinções de nome, mais respeito pelo gesto. Porque enquanto houver alguém disposto a fazer um sapato como se fosse uma obra, esse ofício ainda respira.

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