Longe das multidões das grandes capitais turísticas, uma outra Itália vem ganhando espaço nas escolhas de quem viaja. É a Itália dos borghi: pequenos vilarejos históricos, espalhados por colinas, montanhas e vales, onde o tempo parece correr em outro ritmo. Em 2025, esse turismo mais íntimo e territorial deixou de ser apenas uma tendência charmosa para se consolidar como um dos motores mais sólidos da economia turística italiana.
Os dados apresentados em janeiro de 2026 no Fórum Internacional de Turismo confirmam essa virada. No último ano, os pequenos municípios italianos registraram um crescimento de 6,85% no número de pernoites e de 7,86% nas chegadas de turistas em relação a 2024. Não se trata de um salto pontual, mas de um movimento contínuo que indica uma mudança estrutural na forma de viajar pela Itália.
Hoje, cerca de 68% dos municípios italianos que recebem turistas são vilarejos e pequenas cidades. Juntos, eles respondem por aproximadamente 20% de todas as presenças turísticas do país. Um número expressivo, que desmonta a antiga ideia de que os borghi seriam destinos marginais ou secundários. Na prática, eles passaram a funcionar como uma verdadeira infraestrutura territorial, capaz de distribuir melhor os fluxos turísticos, aliviar a pressão sobre cidades superlotadas e criar oportunidades econômicas onde antes havia risco de esvaziamento.
Esse crescimento não acontece por acaso. Viajar pelos borghi significa escolher experiências mais longas, mais profundas e mais conectadas ao território. O visitante não chega apenas para fotografar e partir. Ele dorme, come, conversa, compra produtos locais, visita oficinas artesanais, participa de festas tradicionais. É um turismo menos acelerado, mas economicamente mais eficiente.
Prova disso é o impacto dos investimentos públicos. Segundo o Ministério do Turismo, os 34 milhões de euros aplicados pelo Fundo MiTur em projetos voltados aos pequenos municípios geraram um retorno econômico estimado em quase 100 milhões de euros. Em outras palavras, cada euro investido produziu mais de três euros em valor para o território. Um efeito multiplicador que se espalha em três níveis: direto, com os gastos dos turistas; indireto, ao movimentar fornecedores e serviços locais; e induzido, quando a renda gerada retorna à economia por meio do consumo de quem trabalha no setor.
Para sustentar esse modelo, o governo italiano anunciou novos aportes. Estão previstos 60 milhões de euros em recursos dos Fundos de Coesão, dentro de um pacote mais amplo destinado ao turismo, com foco na qualificação de destinos em pequenos municípios e ilhas menores. O objetivo é melhorar a gestão dos períodos de pico, integrar os borghi às grandes rotas turísticas e fortalecer a identidade de cada território.
Além do impacto econômico, há um efeito simbólico importante. Os borghi ajudam a preservar paisagens, tradições e modos de vida que fazem parte da identidade italiana. Ao mesmo tempo, oferecem ao visitante uma experiência mais autêntica, menos padronizada e mais humana. Não é um turismo “menor”, mas um turismo de alto valor agregado, que aposta na qualidade da vivência, na permanência e na relação entre quem chega e quem vive ali.
Para o público brasileiro, acostumado a associar a Itália a Roma, Veneza ou Florença, esse movimento revela um país mais amplo e diverso. Uma Itália feita de pequenas praças, cozinhas familiares, dialetos, festas locais e histórias transmitidas de geração em geração. Um turismo que cresce devagar, mas com raízes profundas — e que, ao fazê-lo, transforma economias, territórios e a própria ideia de viajar.
O silencioso turismo nos vilarejos da Itália cresce quase 7% e vira motor econômico em 2025

