No coração de uma das áreas arqueológicas mais famosas do mundo, um novo projeto italiano une passado e futuro de forma concreta. O Parque Arqueológico de Pompeia dá início a uma iniciativa vitivinícola inédita, resultado de uma parceria público-privada com a vinícola Feudi di San Gregorio. A proposta vai além da produção de vinho: ela conecta cultura, agricultura, preservação histórica e desenvolvimento sustentável em um mesmo território.
Apresentado em Roma, no Ministério da Agricultura, o projeto prevê o cultivo de vinhedos dentro do perímetro do parque arqueológico, resgatando uma prática que já fazia parte da vida cotidiana da Pompeia romana. A produção será baseada exclusivamente em uvas autóctones da Campânia, com duas variedades tintas (Aglianico e Piedirosso) e duas brancas (Greco, Falanghina e Fiano). Os primeiros vinhos devem chegar apenas dentro de cerca de três anos, respeitando os tempos naturais da videira e do território.
A escolha de produzir vinho justamente em Pompeia carrega um forte valor simbólico. Antes da erupção do Vesúvio em 79 d.C., a cidade era um importante centro vitivinícola do Império Romano. Escavações arqueológicas revelaram tavernas, termopólios, ânforas de armazenamento e até pinturas murais que retratam a colheita da uva e o consumo do vinho. Em Roma antiga, o vinho não era apenas uma bebida: fazia parte da alimentação diária, dos rituais religiosos, da vida social e do comércio, sendo consumido por todas as classes sociais, do escravo ao imperador. Produzir vinho novamente em Pompeia significa, portanto, reconectar o presente a um gesto interrompido há quase dois mil anos.
Para o ministro da Agricultura, Francesco Lollobrigida, a iniciativa representa um modelo virtuoso de gestão do patrimônio público. Transformar áreas que geram apenas custos em espaços produtivos e valorizados é uma forma inteligente de garantir sustentabilidade econômica sem comprometer a proteção dos sítios históricos. O projeto, em sua visão, pode se tornar um paradigma replicável em outros contextos culturais italianos.
Do lado privado, Feudi di San Gregorio destaca o valor simbólico e narrativo do projeto. Produzir vinho em Pompeia permite unir excelência enológica e contexto cultural, oferecendo uma experiência que traduz aquilo que a Itália tem de mais singular: a capacidade de integrar gastronomia, paisagem e história em um mesmo gesto.
O projeto, não se limita aos vinhedos. A iniciativa faz parte de uma visão mais ampla de “empresa arqueo-agrícola”. Estão previstas também ações de valorização dos olivais, projetos de agricultura social e outras atividades capazes de gerar impacto positivo no território ao redor do parque. A ideia é criar uma economia que dialogue com a preservação, envolvendo comunidades locais e promovendo desenvolvimento de longo prazo.
Para o público brasileiro, acostumado a olhar Pompeia como um ícone do passado romano, o projeto oferece uma nova perspectiva. As ruínas deixam de ser apenas vestígios de uma cidade destruída e passam a ser também cenário de continuidade. Entre colunas, pedras e cinzas antigas, o vinho volta a nascer como nas origens: não apenas como produto, mas como linguagem cultural, ponte entre tempos distintos e símbolo de uma história que, mesmo interrompida, nunca deixou de fermentar.
Pompeia cultiva o futuro: dois mil anos depois vinho nasce entre ruínas e identidade milenar

