ter. fev 3rd, 2026

Italiano, dialetos e novas línguas: como muda a forma de falar na Itália

Quem visita a Itália pela primeira vez costuma se surpreender com um detalhe curioso: não existe apenas “o italiano”. Ao longo de séculos, cada região — e muitas vezes cada cidade — desenvolveu o seu próprio dialeto, uma herança antiga que antecede a unificação do país e que ainda hoje faz parte da identidade local. Do vêneto ao siciliano, do napolitano ao sardo, os dialetos italianos são expressões vivas de história, cultura e pertencimento.

Essa diversidade, porém, está mudando. Os dados mais recentes do relatório do Istituto de estatística (Istat) sobre o uso da língua italiana, dos dialetos e das línguas estrangeiras mostram uma transformação profunda na forma como os italianos se comunicam no dia a dia.

Em 2024, quase metade da população com mais de seis anos (48,4%) fala apenas ou predominantemente italiano em todos os contextos: em casa, com amigos e com desconhecidos. É um crescimento significativo em relação a 2015, quando essa proporção era de 40,6%. O italiano se consolida, assim, como a língua comum do cotidiano, especialmente fora dos círculos mais íntimos.

O recuo dos dialetos é ainda mais evidente quando se olha para um período mais longo. Em 1988, 32% dos italianos falavam principalmente dialeto em família. Em 2024, essa porcentagem caiu para 9,6%. Uma redução de mais de dois terços em pouco menos de quatro décadas. Entre amigos, o uso exclusivo ou predominante do dialeto caiu de 26,6% para 8%; com desconhecidos, de 13,9% para apenas 2,6%.

Hoje, cerca de 42% da população ainda utiliza o dialeto em pelo menos um contexto, geralmente alternando com o italiano. O uso é mais frequente dentro de casa ou entre amigos próximos, mas se torna raro em ambientes públicos e profissionais. Falar apenas dialeto em todos os contextos é algo cada vez mais residual: apenas 2,3% da população.

Ao mesmo tempo, cresce a presença das línguas estrangeiras. Sete em cada dez italianos (69,5%) afirmam conhecer ao menos uma língua estrangeira, um avanço de mais de nove pontos percentuais em relação a 2015. O inglês lidera com folga (58,6%), seguido do francês (33,7%) e do espanhol (16,9%). Ainda assim, o nível de proficiência permanece limitado: mais da metade declara ter, no máximo, um conhecimento “suficiente” da língua que domina melhor.

Essa evolução reflete mudanças sociais profundas: percursos de estudo mais longos, maior mobilidade, contato internacional e uma sociedade cada vez mais integrada. Mesmo o crescimento da população estrangeira não alterou de forma significativa o quadro geral, já que muitos imigrantes e seus filhos acabam adotando o italiano como língua principal.

O resultado é um país que fala cada vez mais uma língua comum, sem abandonar totalmente as suas raízes. Os dialetos não desaparecem, mas deixam de ser o centro da comunicação cotidiana. Permanecem como marca cultural, memória familiar e expressão afetiva. Para quem observa de fora, é um retrato fiel da Itália contemporânea: unificada na língua, plural na identidade.

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