Já não se trata apenas do furto clássico, do assalto rápido, do pickpocket anônimo no metrô. O que se impõe hoje é a intimidação em grupo, o ataque súbito, a briga que explode por causa de um olhar atravessado, o bando que cerca a vítima, o caos que vira espetáculo. Enquanto as instituições seguem debatendo, a vida cotidiana se adapta: evitam-se certas ruas, encurtam-se as noites, bolsas e celulares são colados ao corpo, o passo se apressa. É o medo diário, difuso, aquele que raramente vira manchete, até o dia em que vira sangue.
Chamar tudo isso de “percepção” é conveniente. Às vezes, até verdadeiro. Mas já não basta. A percepção nasce da repetição: episódios que se acumulam, relatos que se parecem, vídeos que circulam e mostram jovens agindo como se as regras fossem irrelevantes. Nem sempre há crime organizado, nem sempre existe um plano, muitas vezes nem há um motivo claro. O que se vê é outra lógica em jogo: o controle do território, a exibição de força, a assinatura do grupo. E uma certeza inquietante se espalha: quando anoitece, ninguém se sente realmente seguro.
Nesse cenário, impôs-se um termo: maranza. Não designa uma organização criminosa com hierarquias e estratégias, mas um fenômeno urbano e social. Grupos de adolescentes e jovens, muitas vezes imigrantes clandestinos, que se movem em bando, ostentam poder, buscam visibilidade e transformam a rua em ringue. Não é a roupa, nem a música, nem a estética. É o comportamento. Provocações, assédios, agressões exibidas, furtos relâmpago, confrontos entre grupos rivais, cercos, intimidações. Há crime, mas há também mensagem: “aqui mandamos nós”. E basta um instante numa estação, numa praça, num bonde, dentro de um local público para que o espaço comum se torne terra de ninguém.
Roma tornou-se o símbolo dessa fratura. Capital mundial do turismo, cidade de arte, história e beleza. Mas também uma cidade com áreas demais entregues à degradação: pouca iluminação, presença insuficiente do Estado, zonas cinzentas que viram habitat ideal para a microcriminalidade e a impunidade. Um mapa informal se consolida, decorado pelos cidadãos. Na região de Termini e arredores, atenção. Nos metrôs e pontos de transporte, atenção. Onde a multidão protege o batedor de carteiras e a ausência de controle favorece o agressor, atenção. Depois vêm as noites, os fins de semana, os bairros em que álcool e confusão servem de estopim. San Lorenzo é um deles, assim como outras áreas tensas e desorganizadas. Há trajetos inevitáveis que obrigam a atravessar o problema, mesmo quando se tenta evitá-lo.
O erro foi minimizar sempre. Isso abriu espaço para o pior: a propaganda ou a resignação. De um lado, grita-se “invasão” e procura-se um inimigo fácil; do outro, repete-se que “sempre foi assim”. No meio disso, as pessoas deixam de denunciar porque já não acreditam que a denúncia produza efeito. No centro, porém, estão os fatos. As agressões aumentam e isso é percebido por todos. Os furtos atingem qualquer um. As brigas em grupo entram na normalidade dos relatos noturnos. Os agressores tornam-se mais ousados, mais convencidos de que o risco compensa mais do que qualquer reputação.
E há ainda o grande não dito: a velocidade com que a violência emerge hoje. Uma velocidade alarmante. As redes sociais não apenas narram, amplificam. O bando já não é só físico, é também audiência. Cada gesto pode virar conteúdo, cada agressão um clipe, cada humilhação um troféu. Essa espiral tóxica premia o excesso e pune a prudência. O resultado é uma cidade que, em poucas horas, se torna mais frágil, mais nervosa, mais imprevisível.
Sejamos claros: isto não é o Velho Oeste. Roma não é uma cidade inviável. A Itália não é um Estado falido. Mas existe uma emergência real: a microviolência cotidiana. A microviolência transforma a rua em palco de opressão; muda vidas sem necessidade de hospitalização. Não é preciso ser assaltado para se sentir vítima. Basta viver com a expectativa de que pode acontecer. Evitar um túnel. Mudar de caminho. Olhar em volta como se já fosse sempre tarde.
Ou se intervém com seriedade, controle do território, transporte público seguro, maior presença nas áreas sensíveis, identificação rápida, repatriações, penas certas para quem agride e rouba, regras claras e aplicadas, ou continuaremos repetindo o mesmo roteiro: uma cidade lindíssima, áreas descobertas, cidadãos exaustos e uma nova violência que busca dinheiro fácil e domínio simbólico.

