Existe um ofício antigo que cheira a ferro, fogo e respeito. Um ofício que hoje muitos observam com desconfiança, mas que, nas mãos certas, se transforma em narrativa, memória e até filosofia. Dario Cecchini não é apenas o açougueiro mais famoso da Itália: é um contador de histórias da carne, um homem que transformou o balcão de um açougue em um palco cultural capaz de dialogar com o mundo inteiro, inclusive com o Brasil.
Oitava geração de açougueiros, nascido e criado em Panzano in Chianti, Cecchini sempre contou que sonhava com outra vida: a de veterinário. Não para se afastar dos animais, mas para estar ainda mais próximo deles. Na Toscana rural de antigamente, o veterinário era o médico das famílias, aquele que mantinha o equilíbrio entre homens, animais e terra. Esse sonho se quebrou em 1975, quando a morte do pai o obrigou a voltar para trás do balcão da bottega da família. Um retorno vivido como condenação, antes de se transformar em missão.
No início, Cecchini odiava o avental. Para ele, ser açougueiro significava apenas tirar a vida dos animais. Tudo mudou com o encontro decisivo com Orlando Picci, o mestre que lhe ensinou a olhar a carne como “pedaços de vida”, e não como mercadoria. Ali nasceu sua visão: o açougueiro como artesão renascentista, guardião de um saber ético antes mesmo que técnico. Nada de desperdício, respeito absoluto ao animal, uso integral “do focinho ao rabo”. Não uma moda, mas uma necessidade moral.
Essa filosofia explode publicamente em 2001, durante a crise da vaca louca. Quando a União Europeia proibiu a venda da bistecca fiorentina com osso, Cecchini organizou um funeral simbólico: um bife dentro de um caixão, diante das câmeras do mundo inteiro. É teatro, sim, mas também protesto cultural. A partir daí, Panzano entrou definitivamente no mapa global.
Cecchini rejeita a palavra restaurante. Prefere falar em “cozinhas”, lugares de convivência total onde todos se sentam à mesma mesa, comem o mesmo menu, pelo mesmo preço. Um convivium contemporâneo.
Em Panzano, hoje existem três endereços icônicos:
Antica Macelleria Cecchini
Via XX Luglio 11, 50022 Panzano in Chianti (FI)
A bottega histórica, o coração de tudo. Aqui se compra a carne e muitas vezes se assiste às famosas declamações poéticas entre Dante e Cecco Angiolieri.
Officina della Bistecca
Via XX Luglio 11, 50022 Panzano in Chianti (FI)
O templo da bistecca fiorentina e dos grandes cortes na brasa. Carne em abundância, vinho sem economia e atmosfera ritual.
Solociccia
Via XX Luglio 11, 50022 Panzano in Chianti (FI)
A cozinha da ética: cozidos, ensopados e cortes “pobres” revalorizados. É aqui que se entende, de verdade, o respeito pelo animal.
As especialidades de Cecchini não são apenas pratos, mas declarações de princípios. Da fiorentina às costelas, passando por bochechas, línguas, miúdos e cozidos esquecidos. Tudo tem dignidade. Tudo conta uma história.
Algumas curiosidades o tornam único: Cecchini recita Dante durante os serviços, recebe os clientes com citações de Shakespeare (“To beef or not to beef”) e considera o açougue uma forma de poesia. Participou da série Chef’s Table da Netflix e se tornou um ícone global. Ainda assim, não se define como chef: “Sou um açougueiro que também cozinha”.
O Brasil não é estranho ao universo de Cecchini. Um país onde a carne é ritual social, linguagem identitária e patrimônio popular. Não por acaso, muitos brasileiros chegam a Panzano em busca de algo que vai além de um simples bife: procuram uma ideia de carne que una ética, sabor e comunidade. Cecchini dialoga com um público internacional atento ao bem-estar animal e à sustentabilidade, temas hoje centrais também no debate brasileiro.
Nesse diálogo ideal entre Toscana e Brasil, a carne deixa de ser apenas consumo e volta a ser cultura. Uma ponte feita de fogo, mesas compartilhadas e respeito.
Em uma época de supermercados, carne anônima e criação intensiva, Cecchini defende uma visão radical: menos carne, mas melhor. Liberdade de escolha para todos, inclusive vegetarianos, sem proibições ideológicas. Sua batalha não é contra quem não come carne, mas contra quem a esvazia de significado.
“Um homem deve ser como uma árvore: raízes na terra e copa no céu.” Talvez essa seja a síntese mais poderosa do seu pensamento. Tradição e contemporaneidade, memória e futuro. Em equilíbrio, como uma bistecca no ponto certo.

