seg. jan 12th, 2026

Bari, onde o Adriático ainda fala com o Oriente

Bari nunca se revela de uma só vez. Ela se deixa compreender por camadas, como suas pedras claras gastas pelo sal e pelo tempo. É uma cidade que não pede pressa, mas presença. Porto natural, porta de entrada para o Oriente, cruzamento histórico de povos e comércios, Bari aprendeu a olhar longe sem perder a própria identidade.

O primeiro contato quase sempre acontece a pé. Caminhar entre Bari Vecchia e o bairro Murattiano é atravessar duas ideias de cidade que convivem em equilíbrio. No emaranhado do centro histórico, entre arcos baixos e pátios inesperados, as vozes ecoam e o mar aparece de repente, como um sopro. Ali, as mulheres ainda preparam orecchiette diante de casa, gesto simples que se transforma em memória viva. Logo adiante, a Bari oitocentista se abre em ruas retas e elegantes, herança de uma burguesia mercantil voltada para a Europa, mas moldada pelo Mediterrâneo.

No coração espiritual da cidade, a Basílica de São Nicolau é muito mais que um monumento. É uma ponte entre mundos. Católicos e ortodoxos rezam no mesmo espaço, sob abóbadas que falam de viagens, fé e encontro. Na cripta, entre colunas românicas e bizantinas, repousam as relíquias do santo que inspirou a figura do Papai Noel. Todos os meses de maio, a “manna” que brota do túmulo renova um rito antigo e coletivo. A poucos passos, a Catedral de São Sabino revela uma Bari mais austera e luminosa, românica na forma e profunda na memória.

De frente para o Adriático, o Castelo Normando-Suevo observa a cidade há séculos. Fortaleza, residência imperial e hoje espaço museológico, carrega uma solidez que fala de Frederico II, de cercos e de um Sul que nunca foi periferia. Perto dali, o Teatro Margherita, construído sobre palafitas no mar, tornou-se laboratório cultural, com exposições de arte contemporânea e fotografia dialogando com a água à frente.

Bari também vive nos detalhes urbanos. O Liberty do Palazzo dell’Acqua, com painéis de Duilio Cambellotti, expressa o orgulho de uma cidade moderna; a cúpula do Palazzo Mincuzzi ilumina a Via Sparano com elegância persistente. Na Pinacoteca Provinciale Corrado Giaquinto, à beira-mar, convivem Bellini, os macchiaioli, Morandi e De Chirico. Já o Museu de Santa Scolastica guarda milhares de peças que contam a civilização apuliana como uma lenta sedimentação de culturas.

O mar nunca desaparece. Vê-la do largo, talvez a bordo de um pequeno barco, ajuda a entender o vínculo essencial entre Bari e o Adriático. Quando o verão termina, a cidade muda de ritmo, mas não de intensidade. A Fiera del Levante, ativa desde 1930, devolve a Bari seu papel natural de encruzilhada mediterrânea, espaço de trocas e encontros.

Os arredores também chamam. As Grutas de Castellana descem às entranhas da terra entre estalactites monumentais. Ao norte, Trani acende o porto ao pôr do sol; ao sul, Monopoli alterna branco intenso e enseadas transparentes; no interior, Cisternino cheira a brasa, enquanto Alberobello, com seus trulli, continua surpreendendo.

À mesa, Bari é direta e verdadeira. A cozinha se apoia em poucos pilares: trigo, azeite e vinho. As orecchiette com cime di rapa falam de casa e de estação; a focaccia barese é quase um credo popular; arroz, batata e mexilhões sintetizam terra e mar. Para vivenciar essa tradição, Al Sorso Preferito, na Via Giuseppe Bozzi 39, oferece sabores autênticos; La Uascèzze, na Strada Palazzo di Città 27, celebra a convivialidade; La Bul, na Via Amendola 132, traduz a cozinha pugliese em linguagem contemporânea.

A hospedagem acompanha esse espírito. Palazzo Calò, na Strada Lamberti 8, combina história e design no centro antigo; Palazzo Italia, no Corso Vittorio Emanuele II, aposta em conforto e cores; fora da cidade, a Masseria Il Melograno, em Monopoli, oferece silêncio, oliveiras e uma cozinha memorável.

Chegar a Bari é simples. O aeroporto Karol Wojtyła liga-se diretamente ao centro por trem; a estação central conecta a cidade ao Sul e ao resto da Itália; estradas e o porto continuam fazendo do mar uma via de acesso natural.

Bari não é um cartão-postal imóvel. É uma cidade que muda sem se negar. E quando você vai embora, fica uma certeza silenciosa: Bari não termina quando a viagem acaba. Ela continua, como o mar, trabalhando dentro de quem a viveu.

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