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O gigante que viu Roma nascer: o Castanheiro dos Cem Cavalos no Etna

Existe um lugar, na encosta oriental do Etna, onde o tempo decidiu desacelerar. Ali as estações não passam simplesmente: elas se acumulam. A história não está escrita em livros, mas gravada na madeira. Diante desse colosso vegetal, entende-se de verdade o que significa a palavra “milênio”. O Castanheiro dos Cem Cavalos não é apenas uma árvore: é uma presença. Um testemunho silencioso que lançou raízes quando o ano zero ainda não existia.

Segundo as estimativas mais aceitas pela ciência, esse extraordinário exemplar de Castanea sativa tem cerca de 2.200 anos, embora algumas hipóteses mais ousadas sugiram até quatro milênios. Em qualquer caso, há uma certeza absoluta: quando ele nasceu, Roma ainda não era Roma. E a Europa, como a conhecemos hoje, ainda estava longe de existir.

O castanheiro cresce no bosque de Carpineto, no município de Sant’Alfio, dentro da zona D do Parque do Etna. Nada ali é casual. O solo vulcânico, rico e fértil, alimentou esse gigante por séculos, permitindo que sobrevivesse a erupções, terremotos, incêndios e mudanças climáticas. Hoje ele se apresenta com três grandes troncos monumentais, cada um com circunferência superior a vinte metros. Segundo os estudiosos, podem ser brotos originados de um único tronco ancestral, todos ligados ao mesmo sistema radicular: uma única árvore, muitas formas, uma vida extraordinariamente longa.

Em 1780, sua circunferência total foi medida em 58 metros. Um recorde que lhe garantiu entrada no Guinness como a árvore com o maior tronco do mundo. Atualmente ultrapassa os 22 metros de altura e continua crescendo lentamente, como se o tempo, para ele, fosse apenas um detalhe secundário.

Mas o Castanheiro dos Cem Cavalos não vive apenas de botânica. Vive de narrativa. A lenda mais famosa o liga a uma rainha: Joana de Aragão, ou talvez Joana I de Anjou. Durante uma caçada, surpreendida por uma forte tempestade, ela teria se abrigado sob a imensa copa da árvore junto com cem cavaleiros de sua comitiva. Todos protegidos, todos a salvo. Daí o nome que atravessou os séculos. Uma história sem provas definitivas, mas carregada de simbolismo: o castanheiro como refúgio, como guardião, como mãe antiga.

Sua proteção começa cedo. Já no século XVIII ele é reconhecido como bem a ser preservado. Em 1923, um incêndio ameaça seriamente sua sobrevivência, deixando marcas profundas, mas não fatais. Em 1965, vem o reconhecimento oficial como monumento nacional. Em 1982, entra na seleta lista dos monumentos verdes da Itália, apenas 150 árvores em todo o país. E em 2021 é proclamado Árvore Italiana do Ano pela Giant Trees Foundation, representando a Itália no concurso europeu dedicado aos grandes gigantes verdes do continente.

Hoje, o Castanheiro dos Cem Cavalos não é apenas um símbolo da Sicília. Ele é uma outra ideia de tempo. A prova viva de que existe uma duração que ultrapassa civilizações, dinastias e modas. Permanecer de pé por mais de dois milênios, na encosta de um vulcão ativo, não é apenas resistência. É memória.

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