sex. jan 9th, 2026

Do latim ao talian: a incrível viagem da língua italiana

O italiano não surge nas academias nem nos palácios do poder, mas nas ruas do Império Romano, como evolução natural do latim vulgar, a língua usada pelas pessoas comuns. É a partir daí que se forma um idioma que, séculos depois, se mostrará surpreendentemente mais próximo do latim do que qualquer outra língua românica europeia.

Hoje, o italiano é falado por cerca de 65 milhões de pessoas como primeira língua e por outros milhões como segunda língua, distribuídos em dezenas de países. No entanto, parar nos números significa perder o ponto central: o italiano não é apenas uma língua nacional, é uma língua cultural, identitária, capaz de sobreviver mesmo longe de seu território de origem e, em alguns casos, de manter status oficial além das fronteiras da península.

Do ponto de vista histórico, o italiano padrão se baseia no florentino literário do século XIV. Não se trata de uma escolha casual nem meramente geográfica. Naquele século, alguns escritores compreenderam que o vulgar podia se tornar língua elevada, capaz de expressar pensamento filosófico, sentimento, política e visão de mundo. Dante Alighieri demonstrou isso de forma definitiva com a Divina Comédia, abrindo caminho para Francesco Petrarca, que refinou sua elegância, e para Pietro Bembo, que no século XVI codificou suas regras linguísticas.

Durante séculos, porém, o italiano permaneceu sobretudo uma língua escrita e literária, distante da fala cotidiana da população, ainda fortemente ligada aos dialetos locais. A virada ocorreu no século XIX, quando Alessandro Manzoni compreendeu que uma nação não pode existir sem uma língua verdadeiramente compartilhada. Seu trabalho de revisão linguística de Os Noivos não foi um simples exercício de estilo, mas um ato político e cultural: aproximar a língua escrita da fala culta, tornando-a acessível e unificadora.

Com a Unificação da Itália, o italiano tornou-se língua oficial do Estado, mas sua presença institucional não se limitou ao território nacional. Ainda hoje é língua oficial não apenas na Itália, mas também na Cidade do Vaticano, onde representa a língua administrativa central da Santa Sé, e em San Marino. É língua oficial também em parte da Suíça, no Cantão Ticino e em algumas áreas dos Grisões, e mantém status reconhecido ao longo da faixa costeira da Eslovênia e na região da Ístria, na Croácia, onde convive com o esloveno e o croata como língua histórica das comunidades italianas.

Malta representa outro caso emblemático. Durante séculos, o italiano foi língua da administração, da cultura e das elites, deixando uma marca profunda no léxico e na formação cultural maltesa. Mesmo após a perda do status oficial no século XX, o idioma continua amplamente compreendido e utilizado.

Enquanto o italiano consolidava seu papel na Europa, milhões de italianos deixavam o país. Entre os séculos XIX e XX, a emigração transformou o italiano em uma língua migrante. Ele partiu junto com os dialetos, os hábitos e as memórias familiares. Na América do Norte, na América do Sul e na Austrália, o italiano mudou de função: de língua nacional passou a ser língua de comunidade, de casa, de trabalho e de saudade.

Em alguns lugares, o impacto foi tão forte que deixou marcas permanentes. Na Argentina e no Uruguai, a influência italiana contribuiu para o surgimento do lunfardo, um jargão urbano no qual palavras e estruturas italianas se fundiram com o espanhol local, modificando seu ritmo e vocabulário. É uma das provas mais claras de como uma língua pode continuar viva mesmo quando deixa de ser oficial.

Um capítulo menos contado diz respeito à África. Em países como Eritreia, Somália, Líbia e Etiópia, o italiano, embora não seja mais língua oficial, continua sendo utilizado em contextos comerciais, técnicos e administrativos. Aqui, o italiano permanece como língua de trabalho e de contato, herança de um passado colonial complexo, mas ainda presente na vida cotidiana de muitas pessoas.

No Brasil, porém, essa história assume uma dimensão ainda mais profunda. No Sul do país, especialmente nas áreas colonizadas por imigrantes vênetos, o italiano não se limitou a influenciar o português: ele gerou uma nova língua. O talian nasce como língua de herança, transmitida oralmente de geração em geração, enraizada nos dialetos vênetos, mas transformada pelo contato com o Brasil.

O talian não é um italiano simplificado nem um dialeto fossilizado. É uma língua minoritária viva, falada hoje por cerca de meio milhão de pessoas, com identidade linguística, cultural e histórica própria. Está presente em programas de rádio, transmissões de televisão, dicionários e estudos acadêmicos e, em alguns municípios, é reconhecida como língua cooficial e ensinada nas escolas como patrimônio étnico e cultural.

O reconhecimento por instituições culturais brasileiras não diz respeito apenas à língua em si, mas ao que ela representa: a memória da emigração italiana, a adaptação a um novo território e a capacidade de uma cultura sobreviver transformando-se. Até a origem do nome “talian”, provavelmente derivado da expressão “parla italiano”, conta essa história de simplificação, contaminação e resistência.

Assim, o italiano hoje não está confinado aos limites da península. Ele vive nos países que o adotaram, nas comunidades que o transformaram e nas línguas de herança que o preservam. É uma língua que há muito deixou de pertencer a um único Estado, mas que continua contando, onde quer que esteja, a mesma história de movimento, identidade e transformação.

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