Sob o ruído contínuo da Piazza Venezia, exatamente no ponto em que a Roma moderna acelera e se sobrepõe a si mesma, esconde-se uma das testemunhas mais eloquentes da vida cotidiana da Antiguidade: a ínsula da Piazza Venezia. Não um templo, não um arco celebrativo, mas um edifício “normal” e é justamente essa normalidade que o torna extraordinário. A ínsula era o equivalente romano do edifício residencial coletivo. Em Roma, onde o espaço era precioso e a população crescia constantemente, construía-se em altura. No térreo, lojas e oficinas; acima, um ou mais andares de habitações frequentemente superlotadas, barulhentas e sem conforto. Aqui vivia a maioria dos romanos: artesãos, comerciantes, trabalhadores, famílias que faziam a cidade funcionar longe dos palácios do poder.
A ínsula revelada sob a Piazza Venezia remonta à época imperial e mostra com clareza essa organização. As alvenarias de tijolo, os restos das tabernae voltadas para a rua, as escadas internas contam a história de uma arquitetura pensada para ser prática, econômica e intensamente habitada. Não é uma Roma monumental: é uma Roma vivida, consumida pelo uso diário.
Sua descoberta está ligada às grandes intervenções urbanísticas do século XX, quando a área da Piazza Venezia foi profundamente transformada para adequá-la ao papel de centro simbólico e viário da capital. Durante as escavações emergiram níveis sobrepostos de história: romana, medieval, moderna. Mais uma vez, Roma revelava sua natureza mais autêntica: não apagar, mas estratificar.
O que impressiona na ínsula da Piazza Venezia é o contraste. Acima, o tráfego, as linhas retas do poder, o monumento nacional; abaixo, a vida ordinária de dois mil anos atrás. É como se a cidade tivesse preservado, sob as fundações da representação oficial, a memória de quem realmente a habitava.
Essa ínsula conta também outro aspecto fundamental da Roma antiga: a desigualdade urbana. Enquanto as domus patrícias se estendiam horizontalmente, luminosas e silenciosas, as ínsulas cresciam em altura, muitas vezes instáveis, sujeitas a incêndios e desabamentos. Morar nos andares superiores significava pobreza, escadas íngremes, água para carregar, ar irrespirável no verão. E, ainda assim, era ali que pulsava o coração da cidade.
Hoje, esses vestígios são parcialmente invisíveis, difíceis de ler, comprimidos sob um dos lugares mais icônicos de Roma. Mas é justamente por isso que a ínsula da Piazza Venezia é tão valiosa: ela lembra que a história não é feita apenas de imperadores e monumentos, mas de pessoas comuns, de espaços compartilhados, de uma cotidianidade que raramente encontra lugar nos livros.
Em Roma, mesmo sob uma das praças mais célebres, a vida continua a deixar marcas. Basta parar por um instante, imaginar os andares sobrepostos e compreender que sob cada passo existe outra cidade. E sob essa, outra ainda.
Para compreender plenamente o valor da ínsula da Piazza Venezia, é útil acrescentar um dado frequentemente surpreendente: na Itália, as ínsulas romanas visitáveis são pouquíssimas. Embora fossem a forma habitacional mais difundida da Roma antiga, restam hoje apenas alguns poucos exemplos acessíveis e legíveis, pois esses edifícios construídos para o uso cotidiano e não para durar quase sempre foram destruídos, incorporados ou apagados pelas estratificações posteriores.
As principais ínsulas visitáveis na Itália são:
• as Ínsulas de Óstia Antiga, o caso mais célebre e completo, onde quarteirões inteiros de habitação se conservam com vários andares de altura;
• a Ínsula da Ara Coeli, na encosta do Capitólio, parcialmente visível e integrada ao tecido urbano;
• a Ínsula da Piazza Venezia, visível apenas em parte e de forma fragmentária, mas de enorme valor simbólico;
• alguns vestígios de ínsulas em Pompeia e Herculano, onde, porém, a distinção entre domus e edifícios plurifamiliares é menos nítida.
No total, pode-se falar em menos de dez complexos reconhecíveis e visitáveis, contra as milhares de ínsulas que deviam existir apenas em Roma na época imperial. É uma desproporção que diz muito sobre quem teve direito à memória monumental e quem não.
Por isso, a ínsula da Piazza Venezia é tão importante: não é apenas um resto arqueológico, mas uma rara janela para a vida da maioria dos romanos, preservada sob um dos lugares mais representativos do poder moderno. Onde hoje passam cortejos, automóveis e turistas, outrora subiam-se escadas estreitas, abriam-se lojas ao amanhecer, compartilhavam-se paredes finas e ruídos constantes.
Em Roma, a história mais difícil de ver é muitas vezes a mais verdadeira. E as ínsulas, poucas e frágeis, são a prova de que sob os grandes monumentos pulsava e em parte ainda pulsa a vida cotidiana da cidade.

