seg. jan 12th, 2026

Os poucos vestígios da tumba de Gaio Publicio Bibulo encontram-se hoje ao lado do Monumento a Vittorio Emanuele II, mais conhecido como Altare della Patria e sede do Soldado Desconhecido, não por uma antiga escolha simbólica, mas como consequência direta das transformações urbanas da Roma moderna. Originalmente, a tumba erguia-se ao longo do traçado externo da Roma republicana, provavelmente nas proximidades de uma via de grande circulação, como determinava a lei romana, que proibia sepultamentos dentro das muralhas. Os sepulcros eram elementos da paisagem viária: falavam aos vivos, declaravam status, carreira e méritos cívicos. A posição não era marginal, mas estratégica.

A mudança ocorre entre o fim do século XIX e as primeiras décadas do século XX, quando Roma, tornada capital do Reino da Itália, é submetida a radicais intervenções urbanísticas. A construção do Vittoriano, iniciada em 1885, implicou a demolição de um bairro medieval inteiro nas encostas do Capitólio. Durante essas obras emergiram estruturas antigas de todas as épocas: templos, muros, túmulos. Muitos achados foram removidos, outros documentados e novamente cobertos. Alguns, como a tumba de Bibulo, não puderam ser deslocados sem serem destruídos.

A solução foi tipicamente romana: deixá-los in situ, adaptando a cidade moderna às vestígios antigos. Assim, aqueles poucos restos permaneceram comprimidos entre novas ruas, calçadas e o monumento nacional recém-construído. Não foram valorizados como uma área arqueológica autônoma, mas tolerados como uma presença residual, quase um efeito colateral da história.

O resultado é um dos contrastes mais emblemáticos de Roma: de um lado, o monumento símbolo da Itália unificada e do sacrifício coletivo moderno; de outro, uma tumba republicana que narra a ambição individual e cívica de um magistrado de dois mil anos atrás.

Eles estão ali porque Roma nunca apaga por completo aquilo que foi. Estratifica, sobrepõe, incorpora. A tumba de Gaio Publicio Bibulo permaneceu onde estava porque deslocá-la significaria perdê-la e porque a cidade, em seu caos aparente, escolheu mais uma vez o compromisso: conviver com o passado, mesmo quando ele é incômodo, fragmentário, pouco visível.

É uma lição silenciosa, aos pés do Soldado Desconhecido: a memória nunca é única, nem linear. Em Roma, ela caminha sempre em vários níveis.

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