sex. jan 2nd, 2026

Pietracupa, a Belém esculpida na rocha do Molise

Existe uma Itália que não se anuncia, que não se coloca em vitrine e que não sente a necessidade de se explicar. Uma Itália que permanece à margem e que, justamente por isso, conserva intacta a própria força. Em Pietracupa, minúsculo vilarejo do Molise com menos de duzentos habitantes, a pedra não é apenas matéria: é abrigo, memória, destino. Aqui, no coração da provincia di Campobasso, o tempo parece ter se recolhido para dentro das morge, gigantescas formações calcárias nascidas há milhões de anos, quando este território ainda estava submerso pelo mar.

Não é por acaso que Pietracupa é chamada de a Belém da Itália. A espiritualidade, neste vilarejo, não é um conceito abstrato, mas algo que emerge diretamente da rocha. A Morgia domina o núcleo habitado com uma presença severa e, ao mesmo tempo, protetora, enquanto mais abaixo o riacho Vella corta a paisagem com paciência, infiltrando-se entre colinas e vales do Molise. As grutas, que deram origem ao próprio nome do povoado, contam um passado remoto, feito de sobrevivência, silêncios e gestos essenciais.

O que mais impressiona é a igreja rupestre de Santo Antônio Abade, incrustada na pedra como se sempre tivesse pertencido àquele lugar. Na Idade Média, foi ponto de vigilância do castelo e até tribunal. Do lado de fora, o portal com arco e o baixo-relevo do Cristo juiz, com a inscrição Salvador na chave de abóbada, lembram como o sagrado e o cotidiano, aqui, nunca viveram separados. Durante a Segunda Guerra Mundial, aquele mesmo espaço serviu de abrigo contra os bombardeios. Recuperada no final dos anos 1970, a igreja guarda um altar simbólico: uma mó de moinho sobre a qual foi colocado um antigo crucifixo sem braços, encontrado entre os detritos da gruta. Os bancos dispostos em círculo falam de uma comunidade que ainda hoje se reúne ali, não apenas para a oração, mas também para a vida social e cultural.

Pouco distante, a igreja de São Gregório Magno, construída no século XVI e cercada pelas casas ainda habitadas, continua sendo o principal ponto de referência religiosa do vilarejo. Capitéis, pias de água benta e uma estátua de madeira de São Sebastião são o que resta de uma igreja gótica anterior, enquanto ao redor o povoado carrega as marcas profundas da emigração que, sobretudo no pós-guerra, esvaziou Pietracupa de muitas presenças.

E, no entanto, a memória aqui jamais foi abandonada. O Museu da Rupe, cuidado também pelo escultor Fernando Izzi, reúne testemunhos que atravessam séculos de história, incluindo vestígios mais duros do passado, como antigos instrumentos de tortura. A Casa das Lembranças, por sua vez, é um relato coletivo feito de objetos do cotidiano: ferramentas agrícolas, enxadas e arados, instrumentos para a colheita e a vindima, utensílios ligados à preparação do pão e das sagne, roupas de época, enxovais de casamento, baús e malas de papelão de quem partia sem saber se um dia retornaria. Cada objeto é acompanhado por seu nome no dialeto local, como se alguém quisesse segurá-lo por mais um instante antes que o tempo o consumisse.

Completa esse mosaico o Museu dos Pietracupeses no Mundo, instalado na casa de Benedetto Di Iorio, empresário que, dos Estados Unidos, manteve vivo o vínculo com sua terra natal. As fotografias narram partidas do porto de Nápoles, rostos suspensos entre esperança e medo, documentos e imagens de uma migração que levou os pietracupeses aos Estados Unidos, Canadá, Argentina, Brasil, Austrália, Venezuela, Bélgica e Alemanha. Não é um museu da distância, mas da continuidade.

Ao redor, a natureza fecha o círculo. Além da Morgia de Pietracupa, que atinge 695 metros de altitude, ergue-se a Morgia de Pietravalle, ainda mais alta, pontilhada por fendas habitadas por répteis como o biacco, o saettone e o cervone. Para os amantes do birdwatching, basta erguer o olhar para cruzar com as trajetórias do tordo, da coruja e da cotovia.

Caminhar por Pietracupa, especialmente nas noites de inverno, significa ter a rara sensação de estar dentro de um espaço suspenso, íntimo e ancestral. Um lugar onde a espiritualidade não é proclamada, mas escavada. Onde a pedra não separa, mas acolhe. E onde o silêncio não é ausência, mas uma forma profunda de presença.

O vilarejo está localizado no coração do Molise, na província de Campobasso, longe das grandes rotas, mas não isolado. De carro, a principal referência é a autoestrada A14 Adriática: saindo em Termoli ou Vasto Sul, segue-se em direção ao interior, passando por Campobasso e depois por Pietracupa, atravessando uma paisagem que aos poucos se torna mais austera, mais silenciosa. Partindo de Roma, o trajeto passa pela A1 até Caianello e continua em direção a Isernia e Campobasso, com o relevo dos Apeninos acompanhando os últimos quilômetros.

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