qui. jan 1st, 2026

Cilento, mudança de vida entre montanhas, vilarejos e uma natureza extraordinária

Jovens, formados, determinados. Eles voltam às raízes para devolver vida a antigos vilarejos de montanha, imersos em uma natureza espetacular. Histórias de resiliência contemporânea.

Cuccaro Vetere é um pequeno vilarejo nas encostas do Gelbison, o monte sagrado do Cilento, com cerca de 300 habitantes. Entre eles estão dois jovens vindos do Norte da Itália: Alberto Carrato e Maria Chiara Faganel, de 29 e 27 anos. Diplomas universitários, pós-graduação e carreiras já iniciadas, eles deixaram a vida urbana ele em Milão, ela em Gorizia para “viver em outro ritmo, praticar uma hospitalidade respeitosa e sustentável e contar o Cilento mais escondido”.

Em abril, Alberto e Maria Chiara inauguraram seu experience hotel de nove quartos dentro das antigas paredes do Convento Franciscano, restaurado pelo município com recursos europeus, preservando fragmentos de afrescos do século XIV, abóbadas de pedra e partes de rebocos do século XVIII.

Um lugar de grande fascínio, com elegância sóbria e minimalista, que combina móveis de recuperação rural com design contemporâneo. Quem chega encontra silêncio e ar puro, o prazer de um prato de massa com molho de tomate colhido na horta, o tempo lento para ler, explorar, reconectar-se com a natureza.

Para Alberto, trata-se também de um retorno íntimo: Cuccaro é a cidade natal de seu pai, Dante, que emigrou nos anos 1960 e faleceu há alguns anos. A mãe de Alberto, Patrizia, acompanhou o filho nessa aventura e hoje cuida da cozinha da Osteria del Convento: poucos mesas no claustro e receitas autênticas.

A deles é uma história de “tornanza”, de redescoberta e novas perspectivas, que está mudando o rosto de muitos vilarejos do Sul da Itália. Alberto e Maria Chiara trouxeram movimento: organizam exposições de arte na nave da igreja, degustações de vinhos e caminhadas pelas ruas do centro histórico, que conta sua história milenar como posto avançado grego da vizinha Velia, fortaleza normanda e feudo de Frederico II.

Ao redor, a natureza é soberana: maciços calcários, castanhais sem fim, paredões cobertos por pinheiros-de-alepo e rios que escavaram gargantas profundas, como o Mingardo, o mítico Estige da Eneida, que nasce no Gelbison e chega até o mar de Palinuro.

Na localidade de San Severino di Centola, ao longo da estrada provincial 17b, o leito do rio é alcançado por uma escadaria que leva ao Oásis Panoria, na Gola do Diabo. Em um cenário selvagem destaca-se a ponte ferroviária da era fascista, em funcionamento até 1965: uma obra civil imponente com oito arcos de tijolos vermelhos que emerge do esporão rochoso onde se avista o pequeno vilarejo abandonado de San Severino, íngreme e silencioso, com suas casas de pedra, os restos da torre lombarda e do palácio baronial.

Uma trilha sobe até o topo. A atmosfera e o panorama emocionam: o vilarejo fantasma foi um baluarte estratégico ao longo do rio. Hoje, a associação Il Borgo cuida do local, organizando encontros de poesia, teatro e sabores.

Resiliência é a palavra que permeia profundamente esses lugares, que devem ser atravessados com passos lentos e coração aberto. Foram terras de monges e brigantes, de pastores, partisanos e peregrinos.

Por aqui passa o milenar Caminho de São Nilo e hoje passa também um novo tipo de turismo, mais consciente, que não grita. Quem chega até Bosco, pequena fração de San Giovanni a Piro, nas encostas do monte Bulgheria com vista para o Golfo de Policastro, visita a Casa Museu de José Ortega, o pintor de la Mancha, amigo e aluno de Picasso, que aqui chegou como exilado e viveu por vinte anos.

A arte é outro fio condutor. Pisciott’Arte é a bienal (a próxima em 2026) que ocupa o centro histórico de Pisciotta com obras de artistas internacionais e eventos espalhados pelas ruas.

Suecos e ingleses começaram a comprar casas, encantados pela paisagem suspensa entre oliveiras e mar, pelas vielas de pedra e pelos palácios nobres com portais esculpidos.

Marulivo é o lugar para ficar: no coração do vilarejo, é o boutique hotel de Lea Pinto e de seu marido Massimo Isacco. Um antigo palácio, outrora mosteiro, hoje hotel de charme onde a arte faz parte da casa. Onze quartos cuidadosamente decorados, um terraço de tirar o fôlego onde o café da manhã vira ritual e uma hospitalidade atenta em cada gesto.

À noite, vai-se à Cantina Lamadè, onde não existe menu impresso, mas pratos de uma cozinha viva, que mudam todos os dias e são contados em voz alta. Daniele Franzon é o cozinheiro; sua esposa Enza recebe na sala junto com as filhas Laura e Maria. Um verdadeiro projeto familiar.

Histórias e sabores cilentanos: a mozzarella na mortella (envolta em folhas de murta), as anchovas de menaica (antigo método de pesca), as azeitonas de Pisciotta, a massa fresca feita com o antigo trigo Carosella. “Vem que eu te conto o Cilento!” é o mantra: conversa-se, compartilha-se e, em algumas noites, há também música.

Há um sentimento que une todos esses vilarejos do Cilento: o prazer da descoberta para quem chega e o gosto de contar histórias para quem acolhe. Parte-se com a promessa de voltar, tamanha é a sensação de bem-estar.

Isso acontece em Gustophia, a “despensa popular” de Annacarla Tredici, em Omignano: uma parada para comprar bons produtos, tomar um aperitivo ou participar de uma degustação dos queijos que Annacarla produz na Tenuta Principe Mazzacane junto com o marido Andrea Giuliano. Desde 2018, eles criam cabras de pelo longo da antiga raça cilentana: duzentos animais que pastam nas encostas do monte Stella e produzem cacioricotta, iogurtes e queijos refinados.

A área montanhosa e pastoral é também uma grande viagem gastronômica. Próxima está Rocca Cilento: um aglomerado de casas de pedra agarradas a quase 600 metros de altitude, ruelas sempre em subida e apenas quarenta habitantes. O céu de outono oferece pores do sol em chamas e aromas de lenha queimando.

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