A máquina de café espresso é um dos símbolos mais autênticos da engenhosidade italiana: uma criação nascida do gênio, da obstinação e da paixão por fazer as coisas com excelência.
E, como muitas histórias italianas, esta também começa numa oficina, atravessa revoluções geniais e se transforma em um sucesso mundial.
Turim, 1884: o primeiro sonho de espresso
O primeiro sopro da máquina de espresso nasce em Turim, em uma Itália que corre rumo à modernidade.
Angelo Moriondo, um empresário turinês de mente inquieta, imagina uma máquina capaz de preparar café em poucos instantes. Em uma época em que tudo é lento, Moriondo sonha com velocidade.
Sua patente de 1884 ainda não mudaria o mundo, mas plantaria uma semente.
A máquina não seria produzida em série, mas deixaria a centelha que acenderia uma revolução.
Milão, início dos anos 1900: o engenho encontra o talento comercial
No início do século XX, no coração operoso de Milão, outro nome entra em cena: Luigi Bezzera.
É ele quem transforma a ideia de Moriondo em um sistema mais prático: introduz o porta-filtro, melhora a extração, pensa no barista.
Bezzera é um inventor puro, desses que nunca param de experimentar.
Mas não é um homem de negócios. Sua máquina permanece um tesouro sem público. Até que surge Desiderio Pavoni. Pavoni, um empreendedor de faro aguçado, compra as patentes de Bezzera e funda, em 1905, a lendária La Pavoni. Sua máquina Ideale torna-se o ponto de partida do espresso servido no balcão — aquele tomado com pressa, que cheira à Itália do trabalho, da madrugada, dos primeiros bondes circulando.
A partir desse momento, o espresso se torna um ritual nacional.
Milão, 1947: a revolução da crema
Os anos passam, a Itália muda e o café muda junto.
No pós-guerra, em uma Milão que tenta se reerguer, um barista de sorriso fácil e mente inquieta imagina o próximo passo: Achille Gaggia.
As máquinas a vapor já não bastam. Gaggia cria um sistema de alavanca capaz de gerar uma pressão muito maior, quase 9 bar.
O resultado é uma bebida mais densa, mais aromática, coroada por uma crema dourada que ninguém jamais havia visto.
Nasce o espresso como o conhecemos hoje.
Gaggia torna-se uma marca icônica, uma bandeira da excelência italiana, presente em bares e casas do mundo inteiro — inclusive no Brasil.
1961: a Faema E61 e o espresso do futuro
Se existe um momento em que o espresso entra no futuro, é 1961, quando a Faema apresenta a mítica E61.
Um nome quase espacial, uma silhueta futurista, e uma tecnologia revolucionária: a bomba elétrica, capaz de manter uma pressão constante.
A E61 não é apenas uma máquina: é um ícone, um símbolo do design italiano, um objeto que muda para sempre a história do café.
A partir daquele dia, todas as máquinas profissionais seguiriam esse caminho.
Os anos de ouro do design italiano: La Marzocco, Rancilio e outros protagonistas
Dos anos 1970 aos anos 1990, a Itália se consolida como capital mundial das máquinas de café. Surgem marcas que hoje são lenda:
• La Marzocco (Florença): pioneira da caldeira dupla e da estabilidade térmica; muito presente no Brasil nas cafeterias de especialidade.
• Rancilio (Milão): robustez industrial e design essencial; popular no uso profissional e doméstico.
• Nuova Simonelli / Victoria Arduino (Marche): tecnologia avançada, patrocinadora de campeonatos mundiais de barismo.
• Sanremo, Rocket, ECM, Bezzera (a família Bezzera ainda protagonista mais de um século depois).
A Itália se torna a pátria indiscutível do espresso. Onde quer que se beba um bom espresso, quase sempre há um nome italiano por trás.
Hoje: a Itália no mundo e o Brasil como nova pátria do espresso
Hoje, o mercado mundial vê marcas italianas por toda parte — dos cafés de Nova York às padarias de São Paulo.
No Brasil, um dos maiores produtores de café do mundo, as máquinas profissionais mais comuns são italianas:
• La Marzocco (amplamente usada em cafeterias de café especial)
• Faema e Cimbali (muito presentes em cafeterias tradicionais)
• Rancilio (popular em uso profissional e doméstico)
• Gaggia (forte presença em casas e escritórios)
• Nuova Simonelli (muito usada em escolas de baristas e competições)
No setor doméstico, as marcas mais vendidas incluem:
• Nespresso (suíça, mas com forte presença e design italiano)
• Gaggia, De’Longhi, Philips Saeco (Itália/Holanda com tecnologia italiana)
A marca italiana mais vendida do mundo no segmento profissional é frequentemente considerada o grupo Cimbali–Faema, enquanto no setor doméstico internacional domina a De’Longhi, seguida por Gaggia e Saeco.
Uma história feita de pessoas e do engenho italiano
A história da máquina de espresso é profundamente italiana.
Nasce em Turim, cresce em Milão, floresce em Florença, aperfeiçoa-se nas Marche.
É uma história de inventores, baristas geniais e empreendedores visionários que transformaram uma ideia em uma cultura global.
E toda vez que uma xícara ressoa sobre o pires — na Itália, no Brasil ou em qualquer parte do mundo — um pedacinho dessa história continua vivo.

