Um dos embutidos mais tradicionais do norte da Itália tem uma ligação muito mais próxima com o Brasil do que muitos consumidores imaginam. A bresaola da Valtellina, especialidade da região da Lombardia e reconhecida com a certificação de Indicação Geográfica Protegida (IGP), depende fortemente da carne bovina sul-americana e o Brasil ocupa um papel central nesse abastecimento.
Essa relação, porém, entrou em uma fase de incerteza. Desde 3 de setembro de 2026, a União Europeia suspendeu a importação de carne bovina brasileira, uma decisão que atingiu diretamente os produtores da Valtellina. O setor agora procura alternativas para manter a fabricação do embutido, enquanto tenta ampliar a participação da pecuária italiana em uma cadeia produtiva historicamente dependente de fornecedores estrangeiros.
Os números ajudam a dimensionar o problema. Mais de 80% da carne utilizada na produção da Bresaola della Valtellina vem da América do Sul, e aproximadamente 60% do total tem origem brasileira, segundo os dados apresentados pelo setor. A suspensão, portanto, não representa apenas uma mudança comercial: coloca sob pressão o fornecimento de uma das principais matérias-primas de um produto emblemático da gastronomia italiana.
Uma especialidade italiana com matéria-prima internacional
A situação também revela uma curiosidade sobre a certificação IGP. Embora o nome da bresaola remeta à Valtellina, sua carne não precisa ser produzida na Itália. Pelas regras da indicação geográfica, o processamento deve ocorrer na província de Sondrio, na Lombardia, seguindo critérios específicos de seleção da carne e de elaboração. A origem da matéria-prima, entretanto, pode ser estrangeira.
A bresaola é produzida a partir de cortes bovinos, principalmente da coxa, que passam por salga, temperos e maturação. O resultado é um embutido curado de textura firme, sabor delicado e cor vermelha característica, muito presente na gastronomia italiana, frequentemente servido em fatias finas com azeite, limão, rúcula e lascas de queijo.
A dependência de carne importada não surgiu agora. A disponibilidade limitada de bovinos destinados à produção de carne na Itália é um dos fatores que levaram o setor a buscar fornecedores no exterior. Historicamente, a pecuária italiana se desenvolveu com forte presença da produção leiteira, o que dificulta ampliar rapidamente a oferta de cortes adequados à fabricação da bresaola.
Plano para uma bresaola com mais carne italiana
Para reduzir essa dependência, o setor começou a desenhar uma alternativa. Um acordo apoiado pela Coldiretti e pela Filiera Agricola Italiana prevê a possibilidade de envolver até 100 mil bovinos criados na Itália por ano, com a meta de fornecer cerca de 5 mil toneladas de cortes destinados à produção de bresaola.
O projeto, contudo, não terá resultados imediatos. A estimativa é que a estrutura necessária para atingir esse volume leve de três a cinco anos. Além disso, a produção italiana dificilmente conseguirá, sozinha, substituir toda a carne atualmente utilizada pelo setor.
A dimensão da indústria ajuda a explicar o desafio. Em 2025, as 13 empresas integrantes do consórcio produziram aproximadamente 11,9 mil toneladas de bresaola, com valor de varejo estimado em 502 milhões de euros. Diante desse volume, a utilização exclusiva de carne italiana é considerada uma possibilidade de médio ou longo prazo, não uma solução para a crise atual.
Enquanto isso, os produtores estudam ampliar as compras de outros países da América do Sul, como alternativa para compensar a ausência da carne brasileira. Os estoques disponíveis ainda devem sustentar a produção por alguns meses, mas o mercado já sente os efeitos da mudança: o preço da matéria-prima destinada à fabricação do embutido registrou alta de aproximadamente 15%.
O que está por trás da suspensão brasileira?
A decisão europeia está relacionada às exigências do bloco sobre o controle do uso de antimicrobianos na criação de animais. Segundo a Comissão Europeia, o Brasil não apresentou garantias consideradas suficientes de que toda a cadeia produtiva atende às regras europeias, que proíbem determinadas substâncias como promotoras de crescimento e restringem o uso de medicamentos reservados à medicina humana.
É importante destacar que a medida não foi anunciada após a identificação de contaminação em lotes específicos de carne brasileira. O questionamento europeu diz respeito aos mecanismos de controle e à comprovação de conformidade com os padrões exigidos pelo bloco.
A suspensão poderá ser revista quando o Brasil demonstrar que atende aos requisitos e voltar a integrar a lista de países autorizados a exportar esses produtos para a União Europeia.
Por enquanto, a indústria da bresaola precisa administrar o tempo: encontrar fornecedores, reorganizar contratos e fortalecer a produção local sem comprometer o abastecimento. O caso mostra como a gastronomia, mesmo quando carrega um nome profundamente ligado a um território italiano, também depende de uma cadeia internacional de produção.
E há uma ironia nessa história: um produto reconhecido como símbolo da tradição da Lombardia precisa olhar para o outro lado do Atlântico para garantir que continue chegando às mesas italianas.

