Uma proposta para proibir o abate de cavalos e outros equídeos na Itália superou a marca de 50 mil assinaturas em apenas quatro meses, alcançando o número necessário para que uma iniciativa popular possa ser considerada na agenda do Parlamento. Apresentada em julho de 2026 pela organização Animal Equality e pela Fondazione Islander, a campanha reacende o debate sobre o consumo de carne equina e a proteção dos animais no país.

A legislação italiana permite o consumo desse tipo de carne, que faz parte de tradições gastronômicas regionais. Embora possa surpreender brasileiros, comer carne de cavalo não é um costume desconhecido na Itália: ela aparece em receitas tradicionais, especialmente em algumas áreas do norte e do sul do país.

Na região do Vêneto, por exemplo, a província de Pádua é conhecida por preparações à base de carne equina, incluindo ensopados e molhos servidos com polenta ou massas. Em Verona, também há pratos tradicionais preparados com carne de cavalo, como o pastissada de caval, um cozido de longa preparação. Já na Apúlia, sobretudo na região de Bari e em Salento, a carne equina é utilizada em preparações como almôndegas, braciole e ensopados. Em algumas localidades, também é encontrada em açougues especializados e restaurantes tradicionais.

Apesar dessa presença histórica na culinária italiana, o consumo está longe de ser generalizado. Segundo os dados citados pelos promotores da campanha, apenas 17% das pessoas que consomem carne habitualmente afirmam comer carne equina pelo menos uma vez por mês. A proposta defende o reconhecimento de cavalos e outros equídeos como animais de companhia e pretende impedir que sejam abatidos para consumo humano.

Na Itália, o debate ganhou força diante de dados que mostram a dimensão do setor. Segundo o Sistema Informativo Veterinário do Ministério da Saúde italiano, em 2025 foram abatidos 22.854 equídeos no país, número muito inferior ao de bovinos abatidos no mesmo período. As maiores concentrações foram registradas na Apúlia, com 34,3% dos abates, seguida pela Emilia-Romagna, com 20,3%, e pelo Vêneto, com 13,7%. Dados parciais de 2026 apontam pelo menos 14.670 animais abatidos até o período considerado no levantamento.

O que acontece agora?

Atingir 50 mil assinaturas permite que a proposta de iniciativa popular seja encaminhada para consideração parlamentar, mas não significa que a proibição tenha sido aprovada nem que o Parlamento seja obrigado a transformá-la em lei. A iniciativa se soma a outras propostas já apresentadas por parlamentares de diferentes partidos, cujo andamento enfrenta obstáculos na Câmara dos Deputados.

Para Matteo Cupi, diretor executivo da Animal Equality Italia, os números indicam que a carne equina ocupa um espaço limitado no mercado italiano e que o setor depende significativamente de animais importados. A organização defende que cavalos e outros equídeos sejam reconhecidos legalmente como animais de companhia, impedindo seu abate para consumo.

Nicole Berlusconi, presidente da Fondazione Islander, também destacou a rapidez com que a campanha atingiu o número necessário de assinaturas, interpretando o resultado como um sinal de maior sensibilidade da população em relação à proteção dos cavalos.

A mobilização continuará aberta durante o prazo previsto para a coleta de assinaturas. O próximo desafio será transformar o apoio popular em discussão legislativa efetiva, em um país onde a carne de cavalo, embora tenha raízes em tradições culinárias regionais, é consumida por uma parcela relativamente pequena da população.

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