Na Basílica de São Pedro, o encantamento também se revela longe das obras mais famosas. Basta olhar para o alto na Capela Clementina, no setor sudeste do cruzeiro projetado por Michelangelo, para descobrir uma decoração em que o dourado e o azul voltam a realçar um ao outro. A restauração de sua cúpula, conduzida pelo Estúdio do Mosaico Vaticano, devolveu luminosidade e nitidez a uma obra que preserva mais de quatro séculos de história.
A conclusão da intervenção foi anunciada pela Fabbrica di San Pietro em 18 de setembro. Iniciados em maio de 2025, os trabalhos abrangeram 371 metros quadrados de mosaicos e a decoração em estuque. Construída a partir de um projeto de Michelangelo e concluída por Giacomo della Porta em 1580, a capela deve seu nome ao papa Clemente VIII Aldobrandini, responsável por promover sua ornamentação. Os mosaicos foram executados entre 1601 e 1604 com base nos desenhos preparatórios de Cristofano Roncalli, conhecido como Pomarancio.
Para alcançar toda a superfície, foi necessária uma estrutura de andaimes com nove níveis. Dessa perspectiva privilegiada, os restauradores trataram depósitos de sujeira, eflorescências salinas e áreas com desprendimentos, trabalhando também nas minúsculas peças dos mosaicos e nas camadas de vidro que protegem a lâmina de ouro. A limpeza recuperou a definição das cores, enquanto a consolidação estabilizou as partes mais frágeis.
Paralelamente, a recuperação dos estuques devolveu unidade ao conjunto decorativo, permitindo apreciar novamente a relação entre as superfícies revestidas de mosaicos e os elementos modelados. Cada etapa seguiu critérios de compatibilidade dos materiais e reversibilidade, fundamentais para preservar a obra e permitir sua conservação futura.
A restauração também abriu novas perspectivas de estudo. Alguns detalhes das figuras sugerem que partes do mosaico possam ter sido produzidas em ateliê e posteriormente aplicadas na cúpula: uma hipótese que ainda precisa ser confirmada por documentos de arquivo. Fotografias em alta resolução e mapeamentos digitais também preservarão um registro preciso das intervenções.
Para quem visita a basílica, a Capela Clementina torna-se, assim, um convite a observar com mais atenção. Em seu dourado recuperado, revelam-se a sofisticação dos artistas do século XVII e a paciência de quem, hoje, permite que seu trabalho seja novamente apreciado.

