Em Veneza, até um prédio residencial pode ganhar, de forma irregular, uma nova vida como empreendimento turístico. Foi o que aconteceu no bairro de Cannaregio, onde as autoridades descobriram um antigo condomínio transformado em uma estrutura hoteleira com 24 quartos e 48 leitos, sem as autorizações necessárias. O responsável pela empresa proprietária do imóvel foi denunciado à Justiça.

O caso chama atenção não apenas pelo tamanho da operação, mas também por uma questão que interessa diretamente a quem visita a cidade: nem toda estrutura anunciada como hospedagem turística está necessariamente regularizada. Em um destino onde a pressão do turismo sobre o mercado imobiliário é um dos assuntos mais discutidos, a transformação irregular de apartamentos residenciais em quartos de hotel pode trazer consequências para proprietários e hóspedes.

Segundo o Il Gazzettino, a estrutura fica no sestiere de Cannaregio e pertence a uma empresa veneziana que já administra outros estabelecimentos hoteleiros no centro histórico. Durante os controles realizados nos meses anteriores, os agentes encontraram uma série de alterações que indicavam que os apartamentos haviam deixado de funcionar como unidades residenciais.

O prédio, que originalmente era um condomínio, passou a operar na prática como uma extensão de uma estrutura hoteleira regular. No espaço de entrada comum havia inclusive uma recepção, conectada ao hotel principal, onde os hóspedes podiam receber assistência. A organização era, portanto, semelhante à de um hotel convencional.

Dentro dos apartamentos, a transformação foi ainda mais evidente. As cozinhas dos imóveis foram retiradas para que as antigas salas de estar com cozinha pudessem ser convertidas em quartos. Ao todo, foram criadas 24 acomodações, distribuídas pelos espaços que anteriormente correspondiam a quatro apartamentos.

Também foram identificadas outras intervenções. Os espaços de apoio dos banheiros foram eliminados e uma abertura de janela no primeiro andar foi fechada, permitindo a instalação de equipamentos como pia ou chuveiro. Até o sótão acabou sendo aproveitado: uma área destinada originalmente apenas à função de depósito foi transformada em mais um quarto com banheiro. Os fiscais encontraram ainda um sistema de climatização instalado no térreo, próximo à saída da recepção.

O detalhe curioso é que, segundo as informações divulgadas pelo jornal italiano, os hóspedes não estavam necessariamente diante de uma hospedagem improvisada. As pessoas que ocupavam os quartos eram registradas regularmente e recebiam serviços típicos de hotelaria, como café da manhã.

O problema estava na própria estrutura e nas obras realizadas para transformá-la em hotel. O relatório sobre as irregularidades foi encaminhado à Procuradoria da República em 27 de agosto, dando origem ao procedimento contra o responsável pela sociedade proprietária.

Para quem visita Veneza, o episódio serve como um lembrete pouco óbvio: antes de reservar uma hospedagem, vale conferir exatamente que tipo de estabelecimento está sendo oferecido e se a estrutura está devidamente regularizada. A cidade possui regras específicas para diferentes formas de hospedagem e, em um mercado turístico tão disputado, a aparência de um hotel perfeitamente organizado não significa necessariamente que o imóvel esteja autorizado a funcionar daquela maneira.
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