Carpigiani, de Bolonha para o mundo: a máquina italiana que produz gelato no Brasil

Cerca de um terço das máquinas profissionais utilizadas na produção de gelato no mundo leva, de alguma forma, o nome de uma empresa nascida na região de Bolonha. É a Carpigiani, hoje um dos símbolos da excelência italiana na tecnologia aplicada ao gelato.

A empresa, sediada em Anzola dell’Emilia, nos arredores de Bolonha, detém cerca de 35% do mercado mundial de máquinas para a produção de gelato, considerando tanto o gelato artesanal italiano quanto o soft e outros produtos congelados. Sua rede comercial está presente em 110 países e suas máquinas estão instaladas em mais de 200 mil sorveterias, bares e restaurantes em todo o mundo.

Um gelato servido no Brasil, na Austrália ou no Japão, portanto, tem grandes chances de ter sido produzido com uma máquina Carpigiani. É uma história que começou em 1946, na Itália recém-saída do conflito mais devastador de sua história, e que cresceu no coração do distrito industrial de Bolonha, conhecido por sua tradição mecânica e que, ao longo dos anos, se tornaria famoso em todo o mundo.

A Carpigiani nasceu de uma visão e da determinação de Bruto Carpigiani, que projetou a Autogelatiera, uma máquina destinada a revolucionar e automatizar o processo de produção do gelato. Bruto, porém, não chegou a ver sua invenção entrar em produção: morreu prematuramente em 1945, aos 42 anos.

No ano seguinte, seu irmão Poerio assumiu o projeto e, em 5 de abril de 1946, transformou a antiga Gastecnica dos irmãos Carpigiani na Carpigiani Bruto Macchine Automatiche S.r.l., dando início à produção da máquina criada pelo irmão. A empresa começou em um laboratório de apenas 20 metros quadrados e com 12 funcionários.

Daquele pequeno laboratório começou uma história industrial que ultrapassaria as fronteiras italianas.

Nos anos seguintes, a empresa continuou crescendo e foi também a visão comercial de Poerio Carpigiani, combinada à constante pesquisa tecnológica, que impulsionou o grande desenvolvimento da companhia.

Entre 1946 e 1990, foram produzidas cerca de 22.500 Autogelatiere. À produção da máquina original foram acrescentados, ao longo dos anos, novos equipamentos, entre eles máquinas de congelamento contínuo e equipamentos para a produção de sorvete soft.

Em 1964 veio outro momento fundamental: a Carpigiani entrou no mercado norte-americano com a criação da Coldelite USA, abrindo-se para um mercado completamente diferente e ampliando sua presença internacional.

A partir daí, o crescimento não parou mais.

O nome Carpigiani tornou-se progressivamente sinônimo de tecnologia, confiabilidade e inovação no mundo do gelato profissional. Uma tecnologia que não serve apenas para produzir gelato, mas que ajudou a transformar em processo profissional e replicável um produto profundamente ligado à tradição italiana.

Em 2003 foi fundada a Carpigiani Gelato University, escola profissional dedicada à formação na produção de gelato artesanal. Ao longo dos anos, a escola desenvolveu uma rede internacional de campi e programas de formação. Hoje, a formação Carpigiani também está presente no Brasil, com cursos voltados para diferentes níveis de conhecimento.

A unidade brasileira oferece cursos do nível básico ao avançado, workshops temáticos e programas dedicados a técnicas específicas. Em 2026, por exemplo, a programação inclui módulos sobre gelato artesanal, decoração, gelato vegano, receitas sem adição de açúcar e outras especializações.

Para quem quer aprender as técnicas do verdadeiro gelato artesanal italiano, existe, portanto, a possibilidade de fazer a formação diretamente no Brasil ou continuar o percurso na Itália. A própria Carpigiani Gelato University explica que o conteúdo dos cursos é estruturado de forma a permitir a continuidade da formação também no campus principal de Bolonha.

O gelato italiano no Brasil

E aqui chegamos a outro aspecto interessante dessa história: o Brasil.

O gelato, ou mais precisamente o sorvete no vocabulário brasileiro, já faz parte dos hábitos alimentares do país. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias e do Setor de Sorvetes, o Brasil possui mais de 11 mil empresas ligadas ao setor de sorvetes e gelatos, com faturamento superior a R$ 14 bilhões por ano e cerca de 100 mil empregos diretos.

Os dados publicados pela ABIS indicam que, em 2022, o consumo brasileiro chegou a aproximadamente 1,036 bilhão de litros, equivalente a 4,99 litros por habitante. É um número que mostra como o sorvete já está incorporado aos hábitos dos brasileiros, embora o consumo ainda esteja abaixo do registrado em alguns dos principais mercados internacionais.

O mercado brasileiro também é bastante diversificado. A região Sudeste representa 52% do consumo nacional, seguida pelo Nordeste, com 19%, pelo Sul, com 15%, pelo Centro-Oeste, com 9%, e pelo Norte, com 5%.

Mas nos últimos anos também cresceu o interesse pelo gelato artesanal e pelo modelo italiano. No Brasil, a palavra “gelato” passou a ser cada vez mais associada a um produto premium, artesanal e caracterizado por ingredientes e técnicas diferentes das utilizadas no sorvete industrial. Um estudo da Universidade de São Paulo destaca justamente como o crescimento do mercado brasileiro abriu espaço para produtos diferenciados, entre eles sorvetes premium, gourmet, orgânicos e veganos inspirados na tradição italiana.

A diferença não é apenas linguística. O gelato artesanal italiano geralmente é produzido com maior atenção aos ingredientes, à estrutura e ao processo de fabricação, enquanto no mercado brasileiro convivem diversos tipos de sorvete, desde produtos industriais até gelaterias artesanais inspiradas na tradição italiana.

E é justamente aí que está uma das grandes oportunidades para o Made in Italy.

O Brasil é um país que gosta de sorvete, possui um mercado enorme e está descobrindo cada vez mais o valor da experiência ligada ao produto artesanal. Não se trata apenas de vender uma casquinha ou uma taça, mas de apresentar uma cultura: a da gelateria italiana, baseada em técnica, pesquisa de matérias-primas, criatividade e tradição.

Como demonstração do crescimento dessa cultura, hoje São Paulo e outras grandes cidades brasileiras contam com diversas gelaterias artesanais que oferecem gelato inspirado na tradição italiana, combinando sabores clássicos com ingredientes e sabores brasileiros. É justamente esse encontro entre a cultura italiana e a matéria-prima brasileira que está criando uma nova identidade para o gelato no país.

Para quem tem interesse em aprender as técnicas de produção do gelato italiano, a Carpigiani Gelato University representa uma das opções disponíveis também no Brasil. Os cursos de 2026 incluem formação básica e intermediária, módulos avançados, workshops e até uma experiência de imersão na Itália.

De um pequeno laboratório em Bolonha para mais de 110 países no mundo, a história da Carpigiani conta mais uma vez uma das características mais interessantes da indústria italiana: transformar uma tradição artesanal em tecnologia sem perder a alma do produto.

E assim, toda vez que em uma gelateria de São Paulo, Tóquio ou Sydney saboreamos um gelato cremoso, por trás daquela pequena taça pode estar também um pedaço de Bolonha.

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