“Boa noite, um Bitter Campari, por favor.”
Essa é uma frase que poderíamos ouvir muitas vezes na Itália, principalmente na hora do aperitivo. Eu mesmo, com meus amigos, costumava pedir um antes de cada sexta-feira à noite.
Mas como ele nasceu? Quem o inventou? E por que leva esse nome?
Hoje vamos descobrir juntos.
Tudo começa com Gaspare Campari, nascido em 1828, em Cassolnovo, uma pequena cidade da Lombardia, em uma família de agricultores.
Desde muito jovem, Gaspare se apaixonou pela produção de licores. Essa paixão o levaria a Turim, onde buscaria ampliar seus conhecimentos e estudar o universo dos destilados e dos licores.
Mais tarde, tornou-se aprendiz em uma loja de licores em Novara, na Piazza Castello. Com suas primeiras economias, abriu seu próprio café, o Caffè dell’Amicizia, em Novara.
Ali, Gaspare passou a experimentar diferentes receitas e processos, transformando o estabelecimento em uma espécie de laboratório de licores.
Entre suas criações estava o Bitter all’uso d’Hollanda, que rapidamente conquistou os clientes do café. O produto começaria, então, uma trajetória que o transformaria em uma das bebidas italianas mais famosas do mundo.
Graças ao boca a boca, o bitter começou a circular pela cidade. Muitos o chamavam de “Bitter di Gaspare”. Com o tempo, o nome passou a ser “Bitter del Signor Campari” e, pouco depois, chegaria à denominação que conhecemos até hoje: Bitter Campari.
A receita do Campari é secreta, mas sabe-se que a bebida é produzida a partir da infusão de uma combinação de ingredientes, entre frutas, ervas e plantas aromáticas, em uma mistura de água e álcool.
Sua famosa cor vermelho-rubi e seu sabor característico fizeram do Campari um dos grandes símbolos do aperitivo italiano.
O sucesso levou Gaspare Campari a dar um passo importante. Em 1862, mudou-se para Milão, então em pleno processo de transformação econômica e industrial.
Na cidade, fundou o Caffè Campari dentro do histórico Coperto dei Figini, um edifício que reunia lojas e cafés. Alguns anos depois, em 1867, o local seria demolido para dar lugar à suntuosa Galleria Vittorio Emanuele II.
O Caffè Campari foi então inaugurado novamente dentro da galeria. No mesmo edifício, a família Campari também estabeleceu sua residência.
Gaspare Campari morreu em 1882, deixando o comando dos negócios para seu filho, Davide. A empresa já havia se consolidado e começava a construir uma posição cada vez mais forte no mercado.
A expansão continuou.
Em 1915, foi inaugurado o Caffè Camparino, na esquina oposta ao Caffè Campari.
O novo estabelecimento tinha dois andares cuidadosamente decorados, um balcão trabalhado, lustres artesanais e mosaicos. Tudo seguia o estilo Liberty, a versão italiana da Art Nouveau.
Das adegas vinha um fluxo contínuo de água gaseificada, utilizada para servir rapidamente uma das combinações que se tornariam clássicas: o Campari com soda.
O Camparino rapidamente se transformou em ponto de encontro de intelectuais e artistas. Escritores, jornalistas e filósofos frequentavam o local, que acabou se tornando uma verdadeira instituição da vida milanesa.
E, ali, o aperitivo começava a ganhar a forma de um ritual, um verdadeiro ritual italiano.
Davide Campari foi fundamental para levar a empresa para além das fronteiras italianas.
Ele viajou pelo mundo para ampliar seus conhecimentos sobre licores, conhecer novos produtos e, principalmente, compreender novos mercados, culturas e estilos de vida.
A estratégia era clara: levar os produtos Campari para novos países.
Em 1892, foram inauguradas duas novas unidades em Milão. Mais tarde, em 1904, a unidade de Sesto San Giovanni começou a operar, preparada também para atender à crescente demanda internacional.
A Campari começava a criar uma associação poderosa na mente do consumidor: aperitivo era sinônimo de Campari.
E, com o Campari, consolidava-se também uma das tradições mais características da cultura italiana: o aperitivo.
O Caffè Camparino tornou-se um dos grandes centros do chamado pre-dinner, o momento anterior ao jantar dedicado a uma bebida e à convivência.
Mas a empresa ainda tinha uma grande carta na manga.
Em 1932, a Campari lançou um novo produto: o Campari Soda, uma combinação de Bitter Campari e soda, com graduação alcoólica de 10%.
O sucesso foi enorme e parte desse sucesso estava também no design. A garrafa, descartável e de formato futurista, foi desenhada pelo artista italiano Fortunato Depero.
Sem rótulo, trazia a marca “Campari Soda” diretamente gravada no vidro.
O formato da garrafa foi inspirado no pequeno copo em que o Bitter Campari com seltz era tradicionalmente servido no Caffè Camparino.
Nada parecia ter sido deixado ao acaso, a garrafa, os espaços do Camparino, sua decoração e os cartazes publicitários de inspiração futurista espalhados por Milão faziam parte de uma mesma estratégia de comunicação.
Diversos artistas participaram das campanhas da Campari, que se tornou uma das empresas italianas mais inovadoras na utilização da arte e do design para construir uma marca.
Outras empresas italianas passaram a observar e a reproduzir esse modelo.
A Campari estava na vanguarda.
Do Campari ao Negroni
O Bitter Campari também se tornaria ingrediente fundamental de alguns dos coquetéis mais famosos da história.
Entre eles, o Negroni, que combinaria Campari, gim e vermute. Depois vieram outras receitas clássicas, como o Americano e o Garibaldi, além de inúmeras outras combinações que ajudaram a espalhar o sabor do Campari pelo mundo.
Mas a popularidade da bebida não ficou restrita aos cafés elegantes de Milão, o Campari deixou os salões frequentados por escritores e intelectuais e chegou também às províncias, aos trabalhadores e à pequena burguesia.
Bares tradicionais e trattorias passaram a servir e exibir as famosas garrafinhas de cor intensa.
E foi justamente nas trattorias que surgiu uma das combinações mais populares: o chamado Campari bianco, Campari servido com vinho branco da casa.
Ao longo das décadas, o Campari deixou de ser apenas uma bebida.
Transformou-se em um símbolo do estilo de vida italiano.
Sua história está ligada à evolução do aperitivo, à cultura dos cafés, à arte, ao design, à publicidade e à própria transformação de Milão em uma das grandes capitais econômicas e culturais da Itália.
Hoje, o Grupo Campari é uma multinacional com um portfólio de dezenas de marcas distribuídas por mais de 200 países.
Entre elas estão marcas históricas italianas como Cinzano, Cynar, Aperol, Braulio, Riccadonna, Crodino e Zedda Piras. O grupo também reúne marcas internacionais como Appleton Estate, Grand Marnier, Wild Turkey, Glen Grant e SKYY Vodka, entre outras.
Tudo começou, porém, muito antes de a Campari se tornar uma multinacional.
Começou com Gaspare Campari, um jovem apaixonado por licores, em um pequeno café de Novara.
E talvez seja justamente essa a parte mais fascinante da história: uma bebida que nasceu das experiências de um homem em seu pequeno laboratório acabou se transformando em um dos maiores símbolos do aperitivo italiano.

