Investigação liga máfia italiana a rota da cocaína entre Brasil, Panamá e Europa

De acordo com documentos da investigação divulgados pelo Corriere della Calabria, um homem radicado em Turim teria atuado como elo entre fornecedores sul-americanos e integrantes do clã Alvaro, uma das famílias mais influentes da ‘Ndrangheta. Seu papel, segundo a acusação, era coordenar contatos, transmitir informações sobre rotas marítimas e orientar a preparação das cargas antes do embarque rumo ao continente europeu.
As investigações revelam que dois grandes carregamentos nunca chegaram ao destino. O primeiro, com 233 quilos de cocaína, foi apreendido pelas autoridades brasileiras antes mesmo de ser embarcado. O segundo, contendo 31 quilos, acabou interceptado no porto de Cristóbal, no Panamá, durante a viagem para a Europa. O caso mostra o grau de sofisticação das organizações criminosas transnacionais.
Segundo a reconstrução dos investigadores, havia uma cadeia logística distribuída por vários países. Fornecedores na América do Sul informavam a disponibilidade de navios e contêineres; intermediários na Itália analisavam as informações; operadores ligados aos portos italianos orientavam como esconder a droga e quais rotas apresentavam menor risco de fiscalização.
As conversas interceptadas indicam que até o tipo de mercadoria utilizada como cobertura era discutido em detalhes. Contêineres refrigerados, por exemplo, eram considerados menos seguros porque estariam sujeitos a inspeções mais frequentes. Também havia orientações precisas sobre o ponto exato onde os tabletes de cocaína deveriam ser escondidos dentro da estrutura metálica dos contêineres para facilitar a retirada quando chegassem aos portos italianos.
Outro aspecto que chama a atenção é o nível de organização financeira. As investigações apontam que diferentes integrantes da operação negociavam antecipadamente preços da droga, divisão dos lucros e remuneração das equipes responsáveis por retirar a cocaína dos portos, tratando cada carregamento como uma verdadeira operação empresarial.
Há décadas, a ‘Ndrangheta consolidou uma posição dominante no tráfico internacional de cocaína. Diferentemente de outras organizações mafiosas italianas, o grupo construiu relações diretas com produtores e cartéis sul-americanos, reduzindo intermediários e ampliando seu controle sobre o abastecimento do mercado europeu. Diversas investigações internacionais já mostraram que o Brasil ocupa papel estratégico nessa rota, tanto pela dimensão de seus portos quanto pela intensa movimentação comercial com a Europa.
Segundo a acusação, o investigado que atuava a partir de Turim mantinha comunicação constante com os fornecedores sul-americanos e com integrantes da organização criminosa na Calábria, acompanhando praticamente em tempo real todas as etapas das operações, desde a preparação da carga até sua chegada aos portos europeus.
Embora os dois carregamentos tenham sido interceptados pelas autoridades no Brasil e no Panamá antes de alcançar a Itália, a investigação reforça como o tráfico internacional de cocaína funciona por meio de redes altamente estruturadas, capazes de conectar organizações criminosas em diferentes continentes utilizando o comércio marítimo internacional como principal corredor logístico. Fontes: imprensa italiana e documentos da Direção Distrital Antimáfia de Reggio Calabria (DDA).
