A história do garfo: por que ele foi considerado o instrumento do diabo e como a Itália mudou a forma de comer na Europa

Um dos objetos mais utilizados do mundo, presente diariamente em nossas mesas. Hoje o garfo parece tão comum que quase passa despercebido, mas sua história está longe de ser banal. Você sabia que durante séculos ele foi considerado um instrumento diabólico? E que na Itália, assim como no restante da Europa, as pessoas comiam normalmente com as mãos? Por trás desse simples utensílio existe uma fascinante história de superstições, tradições e mudanças culturais que transformaram completamente a maneira de nos sentarmos à mesa.

Até mesmo o seu nome conta uma história. A palavra italiana forchetta deriva do latim furca, que significa “forca”, termo utilizado para designar um instrumento com várias pontas. Desse vocábulo nasceu o diminutivo italiano forchetta, justamente por causa dos seus pequenos dentes, cuja forma durante séculos também foi associada ao forcado do diabo.

Na Idade Média, na Itália e em grande parte da Europa, as pessoas se alimentavam principalmente com as mãos, utilizando facas e colheres como apoio. O garfo, como o conhecemos hoje, praticamente não existia nas mesas do Ocidente. Curiosamente, utensílios semelhantes já eram conhecidos pelos antigos romanos, sendo utilizados principalmente na cozinha ou para servir carnes durante os banquetes, mas não como talheres individuais à mesa. Com a queda do Império Romano do Ocidente, esse costume desapareceu gradualmente da Europa. Enquanto isso, o garfo continuou a ser utilizado e aperfeiçoado no Império Bizantino, onde fazia parte da etiqueta da aristocracia. Foi justamente de Constantinopla que esse utensílio retornou à Itália, por meio de Veneza, no início do século XI, dando início à sua lenta difusão pelo restante do continente.

A grande mudança começou no início do século XI. Por volta do ano 1004, uma princesa bizantina chegou a Veneza para se casar com o filho do Doge. Ela trazia sempre consigo um pequeno garfo de ouro. O motivo? Evitar sujar as mãos ao levar os alimentos à boca, um hábito considerado normal na sofisticada corte de Constantinopla, mas completamente incomum no Ocidente medieval.

A princesa chamava-se Maria Argyropoulaina. Era sobrinha do imperador bizantino Constantino VIII e foi dada em casamento ao jovem Giovanni Orseolo, filho do Doge veneziano Pietro II Orseolo. Segundo diversas fontes eclesiásticas da época, aquele utensílio era visto como símbolo de luxo, fraqueza e até mesmo de perversão diabólica.

Entre seus maiores críticos estava Pier Damiani, teólogo, cardeal e bispo da Igreja Católica, que não demonstrou qualquer indulgência com a princesa. Anos mais tarde, suas críticas também atingiriam outra nobre bizantina, Teodora, que chegou a Veneza após se casar com o doge Domenico Selvo.

Damiani condenava duramente aqueles costumes, afirmando que representavam um excesso de refinamento e um afastamento da simplicidade cristã. Em seus escritos, relatou que a princesa “não tocava os alimentos com as mãos, fazia-os cortar em pedaços minúsculos por eunucos e depois os levava à boca utilizando pequenos garfos de ouro”. Quando a princesa morreu em consequência de uma grave doença, muitos contemporâneos interpretaram sua morte como um castigo divino por seu estilo de vida considerado excessivamente luxuoso.

Até mesmo o formato do garfo alimentou superstições. Seus dentes lembravam, para alguns religiosos, o forcado do demônio, reforçando a crença de que seu uso era pecaminoso e contrário à vontade divina.

Com a chegada do Renascimento, esse cenário começou a mudar. O garfo passou a ser utilizado nas cortes italianas, inicialmente para servir frutas cristalizadas, doces e alimentos mais delicados. Aos poucos, deixou de ser uma curiosidade para se tornar um símbolo de elegância, sofisticação e boas maneiras.

Foi justamente a Itália que transformou esse objeto em um elemento indispensável da mesa moderna. Das cidades italianas, especialmente das cortes do Norte e da Toscana, o garfo iniciou lentamente sua conquista da Europa.

Segundo uma tradição bastante conhecida, foi Catarina de Médici, ao se casar com o futuro rei Henrique II da França, quem contribuiu para popularizar o uso do garfo na corte francesa, a mais poderosa da Europa. Embora os historiadores ainda discutam até que ponto essa influência pode ser atribuída a ela, é certo que a Itália desempenhou um papel decisivo ao transformar o garfo de uma curiosidade oriental em símbolo da etiqueta europeia.

Mesmo assim, as polêmicas continuaram durante séculos. Para alguns, ele representava elegância e civilidade; para outros, era apenas uma extravagância e uma demonstração desnecessária de riqueza e poder. Diversos relatos históricos mostram que, em alguns ambientes religiosos, o uso do garfo continuou sendo visto com desconfiança por muito tempo, revelando como era difícil mudar costumes enraizados havia séculos.

Hoje, o garfo é um dos objetos mais comuns do planeta, presente praticamente em todas as mesas. No entanto, por trás desse simples utensílio existe uma história surpreendente, repleta de imperadores bizantinos, doges venezianos, religiosos, superstições e profundas transformações culturais. Uma história na qual a Itália, e especialmente Veneza, desempenharam um papel fundamental para mudar para sempre a forma de comer em toda a Europa.

Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *