Durante anos, uma sofisticada rede internacional de tráfico de cocaína transformou o Brasil em uma das principais portas de entrada da droga destinada ao mercado europeu. A organização ligava portos brasileiros à região de Piemonte, no norte da Itália, e, segundo a Justiça italiana, movimentou toneladas de cocaína, milhões de dólares e uma complexa estrutura de lavagem de dinheiro capaz de sobreviver até mesmo à prisão de seus principais líderes. É o que revelam as motivações da sentença de primeira instância da Operação Samba, depositadas recentemente pelo Tribunal de Turim e repercutida pela imprensa local.
A investigação mostra como o narcotráfico internacional mudou de perfil nos últimos anos. Em vez de cartéis tradicionais, surgem organizações flexíveis, conectadas por tecnologia, criptomoedas, empresas de fachada e celulares criptografados, capazes de operar simultaneamente em diferentes continentes.
No centro da história está Vincenzo Pasquino, apontado pela Justiça como um dos principais intermediários entre fornecedores brasileiros e grupos ligados à ‘Ndrangheta, a poderosa máfia calabresa considerada hoje uma das maiores distribuidoras de cocaína da Europa. Antes de colaborar com as autoridades, Pasquino teria coordenado negociações, organizado carregamentos e mantido contatos tanto com traficantes brasileiros quanto com famílias mafiosas italianas.
Segundo a reconstrução judicial, a droga era adquirida no Brasil por cerca de cinco mil euros o quilo. Depois de cruzar o Atlântico escondida em navios cargueiros, o mesmo produto podia ser vendido na Europa por valores superiores a 20 mil euros por quilo, margem que explica por que o tráfico internacional continua sendo um dos negócios ilícitos mais lucrativos do mundo.
As investigações também identificaram ligações com integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), considerado a maior organização criminosa do Brasil. De acordo com o processo, fornecedores brasileiros, grupos mafiosos italianos e financiadores europeus participavam das operações, dividindo investimentos, riscos e lucros. Os carregamentos saíam principalmente de portos brasileiros em direção a terminais estratégicos como Gioia Tauro, na Calábria, além de outros portos italianos e do norte da Europa.
Um dos aspectos que mais chamou a atenção dos investigadores foi a capacidade da organização de continuar funcionando mesmo após grandes operações policiais. Com a prisão dos chefes históricos da família Assisi, ocorrida no Brasil em 2019, familiares e colaboradores teriam assumido funções de coordenação, administração financeira e cobrança de dívidas, mantendo ativa a estrutura criminosa. A Justiça italiana considera que essa continuidade demonstra um elevado grau de organização e planejamento.
A operação ganhou dimensão internacional graças à cooperação entre autoridades da Itália e do Brasil. Em dezembro de 2024, uma ação simultânea nos dois países resultou em dezenas de prisões e permitiu reconstruir parte da engrenagem financeira e logística da organização. Em março de 2026 vieram as primeiras condenações, mas o processo ainda está longe do fim. Novas investigações continuam em andamento para identificar financiadores, esquemas de lavagem de dinheiro e outros integrantes da rede.
As mais de cem páginas das motivações da sentença revelam ainda um universo feito de mensagens codificadas, viagens internacionais e expressões aparentemente banais — como “os sapatos das crianças” — que, segundo os investigadores, escondiam ordens, pagamentos ou movimentações relacionadas ao tráfico. Isoladamente pareciam frases sem importância; analisadas em conjunto com interceptações, viagens e registros financeiros, tornaram-se peças fundamentais para reconstruir uma das maiores rotas de cocaína entre o Brasil e a Itália dos últimos anos.
Brasil e Itália unidos pela cocaína: a rota secreta que abastecia a Europa

