A cidade italiana de Matera recebe, nesta sexta-feira (10), às 20h30, um concerto que transforma a música em um encontro entre Brasil e Mediterrâneo. Integrante da programação da 30ª edição do VivaVerdi Multikulti, o espetáculo Suoni dalla terra. Brasile e Mediterraneo a confronto propõe uma viagem sonora que aproxima tradições separadas por um oceano, mas unidas por uma longa história de influências culturais.
Não por acaso, Matera foi escolhida para sediar esse diálogo. Poucas cidades representam tão bem o encontro entre passado e presente quanto a antiga cidade dos Sassi, onde construções escavadas na rocha convivem com uma intensa vida cultural. É nesse cenário que a música assume o papel de ponte entre duas margens do Atlântico.
Promovido pela Arterìa, o concerto parte de uma proposta simples: mostrar que Brasil e Mediterrâneo compartilham muito mais do que parece à primeira vista. Ao longo dos séculos, a língua, as migrações, a espiritualidade e a circulação de povos ajudaram a construir afinidades que hoje se refletem também na música.
No palco do histórico Chiostro delle Monacelle, o Aramà Trio — formado por Giulia Aramà Carmentano (voz), Paolo La Ganga (violão) e Marco Catinaccio (percussão e bateria) — conduz o público por um repertório que percorre a música brasileira contemporânea e dialoga com grandes referências da canção mediterrânea.
As composições de artistas brasileiros como Rael, Felipe Cordeiro e Rena Galozzi dividem espaço com obras de nomes marcantes da cultura mediterrânea, entre eles Joan Manuel Serrat e Totò. O resultado é um repertório que evidencia como diferentes tradições podem dialogar com naturalidade quando compartilham raízes, emoções e histórias.
Essa é justamente a ideia que inspira o espetáculo. Fora da Europa, poucos países preservaram tantos elementos da herança mediterrânea quanto o Brasil. A língua portuguesa, as raízes latinas, a tradição católica e o encontro entre culturas indígenas, africanas e europeias deram origem a uma identidade singular, que encontra no Mediterrâneo um de seus principais espelhos históricos.
Em Matera, essa conexão ganha ainda mais significado. Símbolo da cultura do sul da Itália, a cidade faz da própria história um espaço permanente de convivência entre tradição e inovação. O concerto aproveita esse cenário para aproximar o universo brasileiro da cultura lucana, mostrando que ritmos separados por milhares de quilômetros podem despertar sentimentos muito semelhantes.
Um dos momentos mais simbólicos da apresentação será dedicado à Basilicata. Os tradicionais cucù, pequenas ocarinas de terracota típicas de Matera, vão dialogar com instrumentos bitonais e sonoridades brasileiras, criando um encontro entre o patrimônio popular italiano e a riqueza musical da América Latina.
À frente desse projeto está Giulia Aramà Carmentano, cantora, compositora, bailarina e performer lucana reconhecida como uma das principais intérpretes da música brasileira na Itália. Ao longo da carreira, ela construiu uma trajetória marcada justamente pela aproximação entre os dois países, com parcerias ao lado de Ramilson Maia, do Kaleidoscopio, DJ CIA, dos Racionais MC’s, Boss In Drama, Rael, Felipe Cordeiro e da banda Samuca e a Selva. Seu mais recente EP, O Brasil em Mim, produzido por Rena Galozzi, sintetiza essa caminhada artística.
Ao seu lado, Paolo La Ganga leva ao palco sua experiência na guitarra pop, fusion e jazz, enquanto Marco Catinaccio, referência europeia em percussão afro-brasileira e afro-cubana, reúne décadas de pesquisa e apresentações internacionais, incluindo participações no Sambódromo do Rio de Janeiro durante o Carnaval.
Mais do que um concerto, Suoni dalla terra representa um encontro entre culturas que continuam se reconhecendo apesar da distância geográfica. Em um ano em que Matera exerce o papel de Capital Mediterrânea da Cultura e do Diálogo 2026, o Brasil ocupa um lugar de destaque nessa conversa artística, reafirmando a música como uma das formas mais genuínas de aproximar povos.
Idealizado pela Arterìa, o VivaVerdi Multikulti celebra sua 30ª edição com o tema Oi Dialogoi — expressão do grego antigo que significa “os diálogos”. E talvez poucas apresentações traduzam tão bem esse conceito quanto esta: um concerto em que Brasil e Mediterrâneo deixam de ser margens opostas para compartilhar o mesmo palco.

