Adeus às avaliações falsas? Itália quer exigir comprovante para publicar críticas on-line

É justamente contra esse fenômeno que a Itália decidiu agir. O país prepara novas regras para combater as avaliações falsas na internet, um problema que afeta principalmente o turismo e a gastronomia e que, segundo especialistas, pode distorcer a concorrência, prejudicar empresas honestas e induzir consumidores ao erro. As novas diretrizes, divulgadas pela Autoridade Antitruste italiana e destacadas pelo Corriere della Sera, estão em consulta pública até 15 de julho.
A principal novidade é simples, mas pode mudar profundamente o funcionamento das plataformas de avaliação: para publicar uma opinião, o usuário poderá ser obrigado a comprovar que realmente utilizou o serviço ou comprou o produto. Um recibo, nota fiscal, comprovante de reserva ou qualquer documento equivalente poderá servir como prova da experiência.
A medida nasce em um momento em que as avaliações online passaram a influenciar praticamente todas as decisões de consumo. Antes de escolher um hotel, um restaurante ou até um passeio durante uma viagem, milhões de pessoas consultam comentários publicados por outros usuários. O problema é que nem sempre esses relatos correspondem à realidade.
Nos últimos anos, surgiram empresas especializadas na venda de avaliações positivas e também campanhas organizadas para publicar críticas negativas contra concorrentes. Em alguns casos, bastam algumas dezenas de comentários falsos para alterar significativamente a reputação de um estabelecimento e influenciar milhares de futuros clientes.
No setor do turismo, o impacto pode ser ainda maior. Um hotel com classificação artificialmente elevada pode atrair hóspedes sem oferecer a qualidade prometida, enquanto um restaurante familiar pode perder clientes por causa de críticas publicadas por pessoas que nunca sequer passaram pela porta do estabelecimento.
As novas regras também aumentam a responsabilidade das plataformas digitais. Elas deverão informar de forma transparente como verificam as avaliações, explicar quando um comentário foi efetivamente confirmado e deixar claro se houve algum tipo de incentivo para que aquele conteúdo fosse publicado.
Outro ponto importante é o combate direto à compra e venda de avaliações. Empresas não poderão mais contratar comentários positivos nem esconder seletivamente opiniões negativas para construir uma reputação artificial. A intenção é fazer com que as notas reflitam experiências reais dos consumidores.
Para plataformas de maior porte, a Antitruste italiana recomenda ainda o uso de ferramentas de inteligência artificial combinadas com revisão humana para identificar comportamentos suspeitos, como perfis que publicam centenas de avaliações em pouco tempo ou padrões típicos de fraude.
A preocupação faz sentido diante da importância econômica desse mercado. Segundo dados citados pelo Corriere della Sera, cerca de 77% dos italianos consultam avaliações antes de reservar um hotel, escolher um restaurante ou comprar um produto. Em escala global, estima-se que esses comentários influenciem decisões de consumo que movimentam aproximadamente 152 bilhões de dólares.
Embora a iniciativa tenha sido elaborada inicialmente para os setores de turismo e alimentação, a expectativa é que seus princípios possam ser estendidos gradualmente para outros segmentos do comércio eletrônico.
Em uma época em que uma única estrela a menos pode afastar clientes e uma sequência de elogios pode transformar um pequeno negócio em sucesso da noite para o dia, a Itália aposta que devolver credibilidade às avaliações online é também uma forma de proteger quem viaja, quem consome e quem trabalha honestamente para construir sua reputação.
