Milão dos milionários: imposto baixo para super-ricos faz preço das casas disparar

A Itália abriu as portas para os super-ricos do mundo com um dos regimes fiscais mais vantajosos da Europa. A estratégia atrai fortunas, aumenta a arrecadação e movimenta a economia, mas também produz um efeito colateral cada vez mais evidente: em cidades como Milão, o mercado imobiliário dispara, os imóveis de luxo batem recordes de preço e até famílias de classe média encontram cada vez mais dificuldade para comprar ou alugar uma casa.

Segundo uma análise do Corriere della Sera, a chamada flat tax para novos residentes, criada em 2017, está no centro desse debate. O regime permite que estrangeiros com grandes patrimônios que transferem sua residência fiscal para a Itália paguem um imposto anual fixo sobre os rendimentos obtidos no exterior, independentemente do valor de sua riqueza. Atualmente, essa contribuição é de 300 mil euros por ano, um sistema muito mais vantajoso do que a tributação progressiva aplicada aos contribuintes comuns.

A medida nasceu para tornar a Itália mais competitiva na disputa internacional por investidores, empresários, executivos e grandes fortunas, especialmente em um momento em que países como o Reino Unido endureceram suas regras fiscais para estrangeiros de alta renda. O resultado foi imediato: cada vez mais milionários passaram a escolher a Itália como residência.

Os números confirmam essa tendência. Em 2024, o regime já beneficiava 1.923 pessoas, entre titulares e familiares, gerando cerca de 153 milhões de euros em arrecadação. Um estudo da Assonime estima que, até 2040, o programa poderá render até 1,7 bilhão de euros em impostos diretos, além de estimular investimentos imobiliários, abertura de empresas, consumo de alto padrão e contratação de serviços especializados.

O principal destino desse fluxo de riqueza é Milão. Consolidada como capital financeira da Itália e um dos principais polos econômicos da Europa, a cidade concentra boa parte dos novos residentes de alta renda. O reflexo aparece no mercado imobiliário: entre 2021 e 2024, os preços dos imóveis de luxo cresceram 57%. No exclusivo Quadrilátero da Moda, uma das áreas mais valorizadas do continente, o metro quadrado já alcança aproximadamente 39 mil euros, quase sete vezes a média da própria cidade.

Embora essa valorização esteja concentrada no segmento de alto padrão, economistas alertam que seus efeitos não ficam restritos aos bairros mais exclusivos. O aumento dos preços tende a se espalhar para regiões vizinhas, elevando o custo dos imóveis e dos aluguéis em toda a cidade. É um fenômeno conhecido em grandes centros globais, como Londres e Nova York, onde a concentração de grandes patrimônios internacionais acabou reduzindo a oferta de moradias acessíveis para moradores locais.

É justamente nesse ponto que surgem as críticas. A Corte dei Conti (Tribunal das Contas italiana) questiona se o benefício fiscal realmente produz retornos econômicos suficientes para justificar um tratamento tão favorável. Além disso, especialistas destacam que muitos dos beneficiários não chegam necessariamente para realizar investimentos produtivos ou gerar empregos, mas sim para aproveitar um ambiente tributário mais vantajoso.

O debate também envolve a questão da justiça fiscal. Enquanto trabalhadores, empresários e profissionais residentes na Itália continuam sujeitos ao sistema progressivo de impostos, os novos milionários podem concentrar grande parte de sua riqueza no exterior pagando uma contribuição fixa. Para críticos da medida, isso cria uma desigualdade difícil de justificar em um momento em que o custo da moradia cresce rapidamente nas principais cidades italianas.

Para os defensores da política, porém, o saldo continua sendo positivo. Eles argumentam que, sem esse tipo de incentivo, essas fortunas simplesmente escolheriam outros países europeus, levando consigo investimentos, consumo e arrecadação.

Milão tornou-se, assim, o principal retrato desse novo cenário. A cidade ganha projeção internacional, atrai capital e reforça sua posição entre os grandes centros financeiros da Europa. Ao mesmo tempo, enfrenta um desafio cada vez mais comum às metrópoles globais: conciliar a chegada de grandes fortunas com o direito de quem vive e trabalha na cidade de continuar conseguindo pagar por um lugar para morar.
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