Na pequena cidade de Jauru, no estado brasileiro de Mato Grosso, a Igreja elevou aos altares o missionário italiano dom Nazareno Lanciotti, sacerdote romano da Operação Mato Grosso, assassinado em 2001 por ódio à fé devido ao seu incansável compromisso na luta contra o narcotráfico, a prostituição infantil e a exploração de menores.
A celebração de beatificação ocorreu em 13 de junho, na paróquia Nossa Senhora do Pilar, local simbólico de sua missão de trinta anos, e foi presidida pelo cardeal João Braz de Aviz, prefeito emérito do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, delegado do Papa Leão XIV.
Durante a homilia, o cardeal definiu o novo Beato como «uma testemunha exemplar da vida cristã para toda a Igreja e para a humanidade», destacando que sua existência foi uma demonstração concreta do Evangelho vivido até o sacrifício extremo.
Dom Lanciotti deixou a Itália movido pelo desejo de servir Cristo entre os mais pobres. Ao chegar ao Brasil, dedicou a própria vida ao atendimento das comunidades mais vulneráveis, enfrentando sem medo as graves feridas sociais que atingiam a região de fronteira entre Brasil e Bolívia. Sua ação pastoral e social levou-o a denunciar abertamente os esquemas de tráfico e exploração que vitimavam crianças e adolescentes.
Em 11 de fevereiro de 2001, foi vítima de um atentado cometido por dois homens encapuzados. Gravemente ferido, faleceu onze dias depois, em 22 de fevereiro. Seu martírio foi reconhecido em 2024, durante o pontificado do Papa Francisco.
Um chamado aos valores do Evangelho
Ao recordar a figura do missionário, o cardeal Braz de Aviz destacou que seu testemunho representa hoje «um eloquente estímulo para reavivar os valores do Evangelho», capazes de regenerar também os valores autenticamente humanos em uma sociedade que frequentemente tende a relegá-los ao segundo plano.
O cardeal também alertou para os riscos de um progresso tecnológico sem referências éticas. Embora reconheça sua importância, observou que ele pode favorecer novas formas de escravidão e ampliar o sofrimento de milhões de pessoas quando não é orientado para o bem comum.
Diálogo, escuta e justiça
Retomando temas destacados pelo Papa Leão XIV, o cardeal enfatizou a importância da unidade da Igreja, da comunhão entre as diferenças e da construção da paz por meio do diálogo.
Nesse contexto, a figura do Beato Nazareno surge como exemplo de uma fé capaz de se traduzir em ação concreta. Sua atenção aos pobres e marginalizados nascia de uma profunda vida espiritual, alimentada pela Eucaristia e por uma intensa devoção mariana.
Braz de Aviz também denunciou a destinação de enormes recursos econômicos para a produção de armamentos cada vez mais sofisticados e caros, reafirmando a necessidade de orientar os recursos e as energias da humanidade para a promoção da dignidade humana e da justiça social.
«Acreditamos no caminho do diálogo, que nasce na família, no caminho da escuta e do profundo respeito pelo outro», afirmou. «É necessário abandonar o individualismo, reaprender a escutar, construir a justiça e colocar os bens da Terra a serviço de todos».
Os quatro pilares a redescobrir
Na parte final da homilia, o cardeal indicou alguns pilares fundamentais da vida da Igreja que o Beato Nazareno Lanciotti encarnou com a própria existência: a escuta da Palavra de Deus, a comunhão fraterna, a opção preferencial pelos pobres e o amor à Eucaristia.
Um caminho espiritual que continua a falar à Igreja e ao mundo contemporâneo através do testemunho de um sacerdote que escolheu caminhar ao lado dos últimos e que pagou com a própria vida a fidelidade ao Evangelho.

