Roma, a cidade mais bonita do mundo não promete conforto, mas emoções

Existem cidades que te acolhem com delicadeza. Te acompanham, facilitam a vida, fazem você se sentir parte de um equilíbrio urbano quase invisível. E depois existe Roma.

Roma não te acompanha, ela te coloca à prova.

A capital italiana é provavelmente uma das cidades mais bonitas do mundo para se admirar. Muito menos para atravessar. Principalmente se você tem alguma deficiência motora ou teve a ousada ideia de usar um salto alto imaginando viver um dia digno de um filme italiano dos anos 60.

Porque Roma, antes mesmo de ser uma cidade, é um percurso de obstáculos com vista arqueológica.

As ruas de paralelepípedos do centro histórico parecem ter sido projetadas por uma antiga aliança entre os sampietrini, ortopedistas e fisioterapeutas. Caminhar sobre os famosos blocos de pedra romana pode se transformar em uma experiência espiritual: em poucos metros você perde o equilíbrio, a dignidade e, às vezes, até um sapato.

As mulheres de salto alto sabem muito bem disso. Em Roma, salto 12 não é acessório fashion: é esporte radical. Cada faixa de pedestres vira uma simulação olímpica. Cada descida improvisada da calçada, um pequeno ato de fé.

Enquanto os turistas americanos fotografam tudo sorrindo, as moradoras avançam com o mesmo olhar de quem atravessa um campo minado.

Mas se para quem usa salto a situação já é complicada, para as pessoas com deficiência motora a questão deixa rapidamente de ser irônica.

Elevadores fora de serviço, calçadas inexistentes, rampas improvisadas, buracos históricos que já parecem patrimônio cultural paralelo da cidade. Em muitos bairros romanos, circular com uma cadeira de rodas significa enfrentar um exercício contínuo de adaptação, paciência e resistência psicológica.

Roma frequentemente parece ter sido projetada mais para ser contemplada do que vivida.

E esse é o seu grande paradoxo contemporâneo: uma cidade que fala constantemente sobre turismo internacional, grandes eventos, acolhimento e mobilidade sustentável, mas onde atravessar uma rua ainda pode se transformar em uma experiência de alta tensão.

Naturalmente, Roma continua irresistível. Porque possui aquele caos cenográfico que acaba sempre seduzindo. Você se irrita, reclama das motos estacionadas em qualquer lugar, corre o risco de torcer o tornozelo diante de um palácio do século XVII… e de repente levanta os olhos e encontra uma cúpula iluminada pelo pôr do sol.

E então entende a verdadeira relação que Roma estabelece com quem a vive: ela não promete conforto. Promete emoções.

Mesmo que, às vezes, já bastasse uma rampa bem feita.

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