Há quem entre na sala de aula com um registro eletrônico aberto e o olhar já em outro lugar. E há quem atravesse o corredor como se o tempo fosse uma convenção discutível. Em Turim, todas as manhãs, um professor de literatura se apresenta diante de seus alunos com bombetta, colete e tabarro. Não é provocação. É uma escolha existencial.
Ivan Mecca tem 34 anos e ensina no ensino fundamental. Mais do que pertencer a esta época, porém, parece ter negociado outra forma de permanência. Não é fuga, nem nostalgia decorativa. É, antes, uma forma de coerência radical com um tempo que não lhe foi atribuído ao nascer.
Sua história não começa com uma rebelião, mas com um detalhe: um relógio de bolso recebido aos oito anos. A partir dali, segue uma trajetória lenta, quase inevitável. O primeiro colete ainda na escola primária, a bombetta aos dezesseis anos. Não um disfarce, mas uma identidade que se constrói peça por peça, como um traje costurado com paciência.
Hoje, Mecca vive na Turim contemporânea como um corpo estranho que, no entanto, não cria atrito, mas curiosidade. Caminha por San Salvario, lê no Parco del Valentino, entra em sala em Carmagnola com a mesma naturalidade com que outros vestem tênis e moletom. Passantes o param, pedem fotos, falam em “fantasia”. Mas ele não interpreta. Não encena. Ele existe.
Por trás dessa escolha há uma genealogia cultural precisa: o bisavô Agostino, nascido em 1911, que ainda usava chapéu e capa; as páginas de Conan Doyle, nas quais a Londres vitoriana não é apenas cenário, mas uma ordem do mundo; e, depois, Joseph Roth, com aquele Império Austro-Húngaro que se dissolve tentando manter a elegância até o fim. Mecca não imita essa época. Ele a reconhece.
E então surge a pergunta: o que significa, hoje, estar fora do tempo? É realmente ele que está fora de contexto, ou é o presente que perdeu certa gramática da elegância, do ritmo, até mesmo do pensamento?
Em seu guarda-roupa não há nada de moderno. Nenhum agasalho, nenhum compromisso doméstico com o conforto contemporâneo. Roupas compradas entre eBay e Vinted, óculos pince-nez, cera para o bigode que chega da Inglaterra. Uma estética total, sem ironia, sem distância.
E, ainda assim, não é um homem fechado. Pelo contrário. Na escola, conta que, depois do estranhamento inicial, alunos e colegas se afeiçoam. Porque, sob o tabarro, há um professor presente, capaz de ler em voz alta e de transmitir literatura como experiência viva, não como simples programa escolar. É exigente, diz, mas não cruel. E talvez seja exatamente esse o ponto: recuperar uma autoridade que não precisa elevar a voz.
Ele escreve contos de fantasmas ligados à tradição oral da Basilicata. Até pouco tempo, escrevia tudo à mão, em cursiva, em cadernos. Depois, a necessidade prática o obrigou a usar o computador, uma concessão mínima, quase técnica. No resto, ele resiste.
Nada de televisão. Depois do jantar, lê. Dorme cedo. Como se o tempo, para ele, não fosse aceleração, mas profundidade.
A pergunta, ao fim, permanece suspensa: é realmente possível viver fora do próprio século sem se tornar uma caricatura? Ivan Mecca parece provar que sim, mas com uma condição precisa: acreditar até o fim, sem ironia, sem atalhos.
E talvez seja exatamente isso que desconcerta: não a roupa, mas a coerência.

