No coração de Roma, a poucos passos da Piazza del Popolo, o nome de Alain Ducasse se infiltra entre as pedras de um palácio do século XVI e muda a gramática do luxo gastronômico italiano. Não com arrogância, mas com precisão cirúrgica. O resultado é o novo restaurante dentro do Hotel Romeo Roma: um lugar que não pede atenção, exige.
Aqui não se entra simplesmente para comer. Entra-se para entender para onde está indo a alta gastronomia europeia.
Um hotel que não é um hotel
Por trás desta operação está Alfredo Romeo, que com o seu grupo está construindo algo maior que uma cadeia hoteleira: um sistema cultural. O Romeo Roma é a segunda abertura após Nápoles, mas marca um salto qualitativo evidente.
A intervenção do estúdio Zaha Hadid Architects não é decorativa, é ideológica. Linhas fluidas, curvas que lembram iates, materiais que falam a língua do luxo sem precisar ostentar: ébano Macassar, mármore Nero Marquina, mármore de Carrara.
Os 74 quartos e suítes oscilam entre memória e futuro. Alguns preservam afrescos originais, outros parecem cabines de um navio que atravessa o tempo. Não é design: é narrativa espacial.
E depois há o teto.
O rooftop onde Roma vira espetáculo
No rooftop, em colaboração com Krug, o aperitivo se transforma em ritual. Os telhados de Roma viram cenário, o pôr do sol um elemento de serviço.
Aqui se consome algo que vai além do copo: a sensação de pertencer a uma elite temporária.
Ducasse em Roma: mais que um restaurante
O restaurante é coerente com tudo o resto: elegante, controlado, quase teatral. A cozinha aberta separada apenas por um balcão é o verdadeiro palco. Não há bastidores. Tudo acontece diante dos olhos.
A mise en place fala francês: talheres Puiforcat, precisão geométrica, silêncio.
E então vêm os pratos.
Uma ostra grelhada, acompanhada por uma granita de cítricos de Sorrento: quente e frio que se confrontam sem nunca se destruir. Uma tensão controlada.
O pão vira narrativa: brasa, fermentação natural, sementes. A manteiga chega de um pequeno laticínio orgânico de Parma, “La Villa”, escolhida porque lembra a francesa e isso já diz muito. O azeite, siciliano, variedade piriccudara: amêndoa, delicadeza, identidade.
Depois, a assinatura Ducasse surge clara: gelatina de peixe de rocha, caranguejo-grande e caviar Kristal. Precisão, pureza, construção. Nenhum elemento está ali por acaso.
A garoupa com abóbora e ouriços-do-mar fecha o ciclo: Mediterrâneo e França deixam de ser opostos e começam a dialogar.
Quanto custa entrar nesse mundo?
Não é um detalhe secundário. É parte da narrativa.
Quartos: a partir de cerca de 800 € por noite, com suítes que ultrapassam facilmente os 2.000 €
Restaurante: menus degustação na faixa de 180 – 300 € por pessoa, sem vinhos. Rooftop: aperitivos premium com Champagne Krug.
Não é luxo acessível. É luxo declarado.
O ponto não é a comida
A verdadeira pergunta é outra: por que Ducasse em Roma, e por que agora?
Porque Roma está mudando de pele. Não é mais apenas história para contemplar. Está se tornando uma plataforma competitiva no luxo global, onde hospitalidade, gastronomia e design se fundem para atrair um novo tipo de cliente: internacional, móvel, exigente.
E a Itália, mais uma vez, joga um jogo ambíguo. De um lado, preserva a tradição. Do outro, abre as portas a um francês para redefinir seu futuro gastronômico.
Contradição? Talvez. Ou estratégia.
Informações úteis
Restaurante Alain Ducasse Roma – Hotel: Hotel Romeo Roma
Via di Ripetta, Roma (zona Piazza del Popolo)
Horários: jantar (variável, mediante reserva)
Preços: menus degustação a partir de cerca de 180 €
No fim, não fica o sabor de um prato. Fica uma sensação mais sutil, quase incômoda.
Que Roma, lentamente, esteja deixando de ser apenas eterna.
E esteja começando, em vez disso, a ser contemporânea.





