No coração do rione Celio, uma das áreas mais estratificadas da Roma histórica, março de 2026 marca a devolução à cidade de um elemento há muito esquecido do seu tecido urbano: o Clivio de Villa Celimontana, reaberto ao público após décadas de encerramento.
Um retorno esperado: o clivio redescoberto
A reabertura ocorre após um profundo projeto de restauração, coordenado pelo Departamento de Proteção Ambiental da Prefeitura de Roma e financiado com cerca de 1,2 milhão de euros. A intervenção devolveu acessibilidade e identidade a um percurso do século XVII que, no passado, conectava cenograficamente a colina do Celio ao vale das Termas de Caracalla.
Durante anos, o clivio permaneceu fora dos circuitos urbanos e turísticos, tomado pelo abandono e pela vegetação espontânea. Hoje, volta a ser percorrível como um corredor verde que une natureza, arqueologia e memória urbana.
História e paisagem: um jardim “em movimento”
O Clivio surgiu no início do século XVII como parte integrante da villa da família Mattei, hoje conhecida como Villa Celimontana, um dos mais importantes parques históricos de Roma, cujas origens remontam ao século XVI.
Não se tratava de um simples caminho, mas de um complexo sistema de terraços, fontes e jogos de água, concebido para acompanhar o visitante numa descida cenográfica em direção à cidade antiga. Um dispositivo paisagístico tipicamente barroco, pensado para surpreender e conduzir o olhar.
A restauração: entre filologia e sustentabilidade
A intervenção apostou numa reconstrução fiel ao traçado original. Foram recuperados os caminhos, consolidadas as estruturas históricas e reativadas fontes monumentais, como a Fonte do Rio e dos Monstros Marinhos.
Especial atenção foi dada ao Jardim dos Citrinos, restaurado à sua função histórica com o plantio de cerca de quarenta exemplares de variedades tradicionais italianas.
Entre as descobertas mais relevantes está a recuperação do ninfeu subterrâneo, um elemento raro que reforça o diálogo entre arquitetura, água e vegetação, característica central do projeto original.
O novo sistema de iluminação em LED, discreto e difuso, permite hoje uma fruição segura também no período noturno, transformando o clivio num espaço urbano contemporâneo sem comprometer a sua identidade histórica.
Um elemento na nova geografia cultural de Roma
A reabertura do Clivio não é um caso isolado. Insere-se numa estratégia mais ampla de requalificação do centro arqueológico, que inclui projetos como o CarMe e intervenções na área dos Fóruns Imperiais e do Parque do Coliseu.
Nesse contexto, Villa Celimontana volta a afirmar-se não apenas como parque, mas como um polo cultural capaz de conectar itinerários históricos, paisagísticos e turísticos.
Turismo lento e novas narrativas urbanas
Para o turismo contemporâneo, cada vez mais orientado para experiências autênticas e sustentáveis, o Clivio representa uma oportunidade narrativa única. Não é um monumento icônico, mas um lugar a ser vivido passo a passo.
Aqui, Roma revela-se de forma diferente: não pela monumentalidade do Coliseu, mas pela relação entre verde, água e estratificação histórica. Uma dimensão mais íntima, alinhada à crescente procura por turismo lento e de qualidade.
Uma reabertura simbólica
Março de 2026 representa muito mais do que uma simples reabertura. Trata-se da recuperação de uma continuidade urbana interrompida, da devolução de uma paisagem histórica à vida cotidiana da cidade.
O Clivio de Villa Celimontana volta a ser aquilo para o qual foi concebido: um percurso, físico e simbólico, entre natureza e história, capaz de devolver profundidade à narrativa de Roma.

