Um novo marco visual passou a integrar a paisagem do centro histórico de Porto Alegre. Com 45 metros de altura, o mural “Madre”, inaugurado hoje na fachada da nova sede do Consulado-Geral da Itália, transforma a celebração dos 150 anos da imigração italiana no Rio Grande do Sul em uma imagem permanente na cidade.
A inauguração contou com a presença do embaixador da Itália no Brasil, Alessandro Cortese, e do cônsul-geral em Porto Alegre, Valerio Caruso, reforçando o caráter institucional da iniciativa, inserida na programação oficial das comemorações.
A obra faz parte das celebrações, mas evita uma abordagem tradicional. Em vez de focar apenas na chegada ou em grandes personagens, escolhe um ponto de vista mais íntimo e, ao mesmo tempo, universal: o papel das mulheres na construção dessa memória.
A ideia nasce da curadoria e produção de Giulia Lavinia Lupo, que propôs deslocar o foco da narrativa para uma figura muitas vezes pouco destacada nos relatos históricos, voltando o olhar para quem transmitiu a cultura. “Hoje estamos celebrando um momento histórico porque a gente olhou por uma personagem da história da imigração frequentemente esquecida: a mãe, a madre, a mulher”. “Pra mim – diz ao Jornal Italia – isso tem um significado ainda mais especial, porque sou uma mulher imigrante que veio ao Brasil sozinha anos atrás e estou do lado de uma artista mulher, italodescendente, e conseguimos trazer em uma obra de 45 metros não apenas uma imagem, mas emoções e significados profundos que queremos e sabemos que irão conectar com as pessoas que irão olhar e todos os imigrantes, não só italianos”.
Ao explicar a escolha, Lupo amplia o sentido do mural para além da comunidade italiana. “Se paramos por um momento pra refletir, a mulher, a madre, foi aquela que realmente gerou a memória, protegeu a cultura e passou para nós, que ensinou idiomas, ensinou a cozinhar, a rezar. Então este é um momento muito importante, porque estamos podendo deixar este legado para uma cidade linda como Porto Alegre, em um estado lindo como o Rio Grande do Sul, e qualquer um que virá a ver e se identificar com este mural”, afirma.
A execução ficou a cargo da artista Hanna Lucatelli, que construiu uma imagem pensada para dialogar com quem observa, sem impor uma leitura única. “Eu acho que o significado do mural vai ficar a critério de cada um. Acho que a arte se faz neste caminho entre o espectador e a obra”, afirma. “O que eu quero é abrir pontes, espaços para reflexão, para se pensar a história destas famílias que chegaram, se conectar com a história delas de forma mais sensível, a pensar, a se colocar no lugar dessas pessoas descendentes, se colocar nesta transição, neste caminho, como foi essa jornada, essa passagem para o novo mundo”, destaca ao Jornal Italia.
Nesse sentido, o mural não se limita a representar o passado, mas propõe uma aproximação mais direta com a experiência da imigração. “Sinto um sentimento de agradecimento, pensando a minha história, pelo rastro que ficou nas famílias brasileiras da cultura italiana, das tradições e do valor à união familiar e o valor à arte. Então estou sentindo um sentimento de gratidão para além deste projeto, espero que seja ponte e canal de sensibilidade e conexão com as famílias e os valores que vieram com os descendentes de italianos”, conclui.
Mais do que um elemento decorativo, “Madre” se insere na paisagem urbana como um ponto de memória e reflexão. Em uma cidade onde a herança italiana está presente no cotidiano, o mural propõe uma nova forma de olhar para essa história, a partir de quem a manteve viva ao longo do tempo.

