seg. mar 23rd, 2026

A beleza como ato de protesto: Dries Van Noten transforma Veneza em um laboratório de visões

Em Veneza, onde a história se deposita em cada superfície e a beleza parece um dado adquirido, a Fundação Dries Van Noten escolhe inverter a perspetiva. Com THE ONLY TRUE PROTEST IS BEAUTY, com abertura em 25 de abril de 2026, a cidade torna-se palco de uma reflexão potente e atual: a beleza não como consolo, mas como gesto crítico, capaz de questionar o presente.

O título, retirado de um verso do cantor e ativista norte-americano Phil Ochs, não é uma simples citação, mas uma declaração de intenções. Em tempos “feios”, a beleza configura-se como forma de resistência. Não um elemento decorativo, mas uma experiência carregada de tensão, um encontro que desestabiliza, uma harmonia que não apazigua, mas abre perguntas.

Com curadoria de Dries Van Noten em conjunto com Geert Bruloot, a apresentação desenvolve-se como um percurso imersivo dentro do Palazzo Pisani Moretta, entre o térreo e o Piano Nobile. Mais de 200 obras constroem uma narrativa fluida e intuitiva, distante de qualquer rigidez curatorial. Moda, arte, design, joalheria, fotografia, vidro e cerâmica convivem em um diálogo contínuo que dissolve as fronteiras entre disciplinas.

O núcleo do projeto é o artesanato entendido como linguagem emocional. Cada objeto carrega a marca do gesto humano, da memória das mãos, da cultura que o originou. Tradição e experimentação entrelaçam-se, questionando convenções e abrindo novas possibilidades narrativas.

A moda atravessa toda a exposição como um fio condutor. As silhuetas de Christian Lacroix dialogam com a opulência do palácio, enquanto as criações de Rei Kawakubo para Comme des Garçons introduzem formas radicais e conceituais que desafiam a própria ideia de beleza. Ao lado delas, emerge a voz contemporânea do designer palestino Ayham Hassan, que traduz em matéria um relato de resiliência e identidade.

O diálogo com o espaço é constante. Os afrescos do século XVIII encontram a fotografia contemporânea de Steven Shearer, enquanto as joias Memento Mori de Codognato introduzem uma reflexão sobre a efemeridade. O vidro histórico da família Pisani Moretta confronta-se com experimentações contemporâneas, criando um continuum entre passado e presente feito de transparências e fragilidades.

Ao longo do percurso, elementos naturais e intervenções artísticas desestabilizam o equilíbrio visual. As obras de Hubert Duprat, nas quais insetos transformam materiais preciosos em arquiteturas vivas, ou os trabalhos de Misha Kahn e Ann Carrington, introduzem uma dimensão inesperada, por vezes irônica, que rompe qualquer tentação de harmonia absoluta.

Essa tensão é o verdadeiro fio condutor da apresentação. Sempre que a beleza parece encontrar um equilíbrio, surge uma fratura. Uma dissonância que reativa o olhar e impede qualquer forma de complacência.

“Interessa-nos a beleza não como resposta, mas como pergunta”, afirmam Dries Van Noten e Patrick Vangheluwe. Nessa visão, a beleza torna-se um espaço de ambiguidade, lentidão e contradição. Um lugar onde parar, observar com mais atenção, aceitar a incerteza.

Mais de vinte vídeos acompanham o percurso, oferecendo um olhar íntimo sobre os processos criativos e as intenções dos autores. Não simples documentos, mas extensões narrativas que devolvem profundidade ao fazer.

O acesso à apresentação é reservado aos membros do programa Become a Friend, uma escolha que reflete a natureza íntima e delicada do contexto. O Palazzo Pisani Moretta, antes do início das obras de restauração, abre-se assim a uma experiência única, suspensa entre memória e transformação.

Em um momento histórico em que tudo tende à velocidade e à simplificação, THE ONLY TRUE PROTEST IS BEAUTY convida a desacelerar. A olhar de verdade. E a reconhecer na beleza, quando autêntica, uma forma sutil, mas radical, de resistência.

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