Roma acolhe Vênus como se acolhe uma divindade que regressa a casa: com respeito, assombro e uma subtil tensão emocional. Mas esta não é a Vénus clássica, imóvel e silenciosa. É Vênus Valentino Garavani, reinterpretada through the eyes of Joana Vasconcelos, em exposição de 18 de janeiro a 31 de maio, no espaço expositivo PM23.
Vasconcelos realiza um gesto radical e, ao mesmo tempo, intimamente feminino: veste a deusa. A escultura transforma-se em corpo contemporâneo, superfície narrativa, campo de tensão entre mito e moda. A Vénus já não nasce da espuma do mar, mas de um diálogo intenso entre arte e couture, entre o peso simbólico da história e a aparente leveza do vestido.
O nome Valentino Garavani não é um simples tributo. É matéria viva. É cor, drapeado, gesto. O vermelho icónico, absoluto, quase sacral não é decoração, mas afirmação: de poder, de elegância, de identidade. Um vermelho que, em Roma, vibra de forma distinta, porque dialoga com o mármore, com as ruínas, com a ideia eterna de beleza que a cidade encarna.
Através do olhar de Vasconcelos, a moda deixa de ser ornamento e torna-se linguagem escultórica. Os materiais, muitas vezes industriais ou domésticos no seu trabalho, ganham aqui uma sensualidade nova, controlada, quase solene. A Vénus não seduz: afirma-se. Não se oferece ao olhar masculino; desafia-o, reorienta-o.
O resultado é um curto-circuito visual e cultural. A alta-costura, tradicionalmente ligada ao efémero, ancora-se na eternidade do mito. A escultura, historicamente imóvel, carrega-se de um dinamismo narrativo próprio do vestir. No centro, o corpo feminino: não idealizado, mas ressignificado. Poderoso. Autónomo.
Nesta Roma que estratifica séculos sem nunca se resolver, Vênus Valentino Garavani torna-se um símbolo perfeito do presente: um presente que relê o passado sem nostalgia, que usa a beleza como instrumento crítico e a moda como acto cultural. Não uma exposição apenas para ser observada, mas para ser atravessada com o olhar e com o pensamento.



