Depois de transformar Paris em um set permanente de cartões-postais glamourosos, Emily in Paris escolheu Roma como novo horizonte narrativo. A quinta temporada, apelidada de “temporada romana” pelo público internacional, não é apenas uma mudança de cenário: é uma mudança de ritmo, de luz, de gramática emocional.
Se Paris era o alfabeto da sedução profissional, Roma torna-se a língua do excesso barroco, da contradição permanente. A capital nunca é linear: é estratificada, teatral, irônica. E é justamente nessa teatralidade natural que encontra espaço a protagonista, interpretada por Lily Collins, sempre suspensa entre espontaneidade americana e fascínio europeu.
A cidade eterna entre influenciadores e império
A Roma da série não é a neorrealista nem a decadente. É uma Roma luminosa, instagramável, quase mitológica: pores do sol dourados sobre o Colosseo, desfiles improvisados na Piazza di Spagna, compras de alta-costura na Via dei Condotti.
Mas por trás da superfície polida percebe-se uma tensão cultural sutil. Roma não se deixa conquistar facilmente: é uma cidade que resiste à homogeneização, que observa com ironia quem tenta transformá-la em marca. E justamente essa resistência torna-se motor narrativo.
A temporada brinca com o conceito de “dolce vita 2.0”: não mais paparazzi de Vespa, mas economia dos criadores, campanhas de moda imersivas e estratégias digitais que procuram apropriar-se da herança estética italiana.
Moda, poder e identidade
Em termos de figurino, a temporada romana marca uma virada. Se em Paris dominavam silhuetas estruturadas e paletas sofisticadas, em Roma explodem contrastes: vermelho pompeiano, ouro quente, preto cardinalício, estampas que dialogam com mosaicos e afrescos.
A moda transforma-se em narrativa arquitetônica. Os figurinos parecem responder aos volumes barrocos, aos mármores, às sombras profundas dos becos. Emily já não se limita a “vestir” looks excêntricos: usa-os como instrumentos diplomáticos em um contexto profissional mais complexo, onde o marketing encontra maisons históricas italianas e dinastias familiares.
O conflito deixa de ser apenas sentimental e torna-se cultural: velocidade americana versus lentidão romana, imediatismo digital versus tradição artesanal.
Roma como personagem
Assim como aconteceu nas temporadas anteriores com Paris, também aqui a cidade é personagem. Mas Roma possui uma qualidade adicional: é consciente da própria eternidade. Cada enquadramento dialoga com o passado, mesmo quando conta uma história ultracontemporânea.
A série explora esse contraste para refletir sobre um tema atual: como comunicar o luxo em uma época que consome imagens na velocidade de um swipe? Roma, com sua monumentalidade, impõe lentidão, profundidade, memória. Emily, por sua vez, encarna o algoritmo, a rapidez, a viralidade.
O resultado é uma temporada que, embora mantenha o tom leve e pop que tornou o formato um sucesso global na Netflix, introduz uma dimensão mais madura: menos conto de fadas, mais consciência.
Entre comédia romântica e sociologia urbana
A “temporada romana” funciona como espelho do turismo contemporâneo e do novo nomadismo profissional. Roma é apresentada como hub criativo internacional, mas também como cidade que defende seus rituais.
Nas entrelinhas, surge uma pergunta: a identidade urbana pode sobreviver à sua transformação em set permanente?
Emily in Paris – Temporada Romana não oferece respostas definitivas, mas sugere que a única estratégia vencedora, tanto no amor quanto no branding, é a adaptação inteligente. E talvez, pela primeira vez, Emily não esteja apenas perseguindo um sonho europeu: esteja aprendendo a negociar com a História.
Criação: Darren Star
Elenco principal: Lily Collins, Philippine Leroy-Beaulieu
Ano: 2025
Locais em Roma: Aventino, Trastevere, centro histórico, terraços urbanos
Onde assistir: Netflix

