sex. mar 27th, 2026

Roma e a série tv #7 – The New Pope (2020)

Com The New Pope, Paolo Sorrentino dá continuidade à sua exploração do poder espiritual iniciada com The Young Pope. Roma volta a ser o centro simbólico absoluto, com um tom ainda mais visionário, mais estratificado e assumidamente barroco. Lenny Belardo está em coma. Seu silêncio transforma-se em vazio institucional. Nesse espaço suspenso surge uma nova figura papal, Sir John Brannox, que escolhe o nome João Paulo III e é interpretado por John Malkovich. Frágil, aristocrático e irônico, o novo pontífice encarna outra forma de carisma. Se Pio XIII representava mistério e negação, João Paulo III expressa melancolia e consciência. Roma observa ambos. A cidade eterna torna-se espelho da crise, da sucessão e da necessidade de redefinir a autoridade.

O Vaticano como máquina simbólica

O Vaticano permanece como teatro absoluto. A Basilica di San Pietro domina o espaço visual com sua monumentalidade. Corredores, salões afrescados e jardins silenciosos constroem uma geografia do poder suspensa no tempo. Sorrentino utiliza Roma como estrutura narrativa. As arquiteturas barrocas ampliam o conflito entre fé e dúvida. A cidade não funciona como pano de fundo. Impõe presença. Cada ambiente transforma-se em moldura teatral onde o sagrado e o político se sobrepõem. Roma confirma-se capital de um império invisível que precisa enfrentar escândalos, fragilidades humanas e transformações globais.

Figurino e representação

Em The New Pope, o figurino assume dimensão ainda mais espetacular. As vestes papais multiplicam-se em variações cromáticas e têxteis. O branco absoluto dialoga com vermelhos intensos e bordados dourados. Cada traje constrói uma imagem de poder religiosa e midiática. A figura de João Paulo III introduz uma nova estética. Seu porte aristocrático e sua ironia sofisticada refletem-se em uma encenação mais humana e vulnerável. O papado deixa de parecer apenas uma imagem monolítica e passa a revelar corpo, história e fragilidade. A direção intensifica simetrias e movimentos lentos. A imagem adquire qualidade pictórica. Roma parece atravessada por um respiro solene que une passado e contemporaneidade.

Poder, crise e espetáculo

A série aborda a crise da Igreja como crise de representação. Em um mundo dominado pelos meios de comunicação, o papado precisa redefinir sua autoridade. O retorno simbólico de Pio XIII convive com a presença concreta do novo pontífice. O poder deixa de ser unitário e torna-se tensão entre memória e renovação. Roma converte-se em laboratório dessa transição. A cidade eterna, acostumada a sucessões imperiais e transformações históricas, incorpora o conflito como parte de sua identidade. A narrativa sugere que o poder espiritual sobrevive apenas quando reconhece sua própria fragilidade. A fé confronta a dúvida. A autoridade mede-se pela capacidade de comunicar.

Roma como palco definitivo

Em The New Pope, Roma alcança dimensão ainda mais abstrata. Não é apenas cidade física. É espaço mental e metáfora da eternidade e da crise. Cúpulas, mármores e perspectivas infinitas constroem um universo onde o sagrado se torna espetáculo e o espetáculo adquire significado teológico. A capital italiana confirma-se personagem central da série. Não apenas observa. Intervém simbolicamente na narrativa. Com essa segunda etapa do díptico papal, Sorrentino oferece uma reflexão sobre a necessidade humana de liderança e sobre a impossibilidade de um poder absoluto sem contradições. Roma permanece majestosa e imóvel. Os homens que a atravessam revelam toda a sua precariedade.

Direção: Paolo Sorrentino
Elenco principal: John Malkovich, Jude Law
Ano: 2020
Locais em Roma: Vaticano, Cinecittà

Onde assistir: Indisponível no Brasil neste momento

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