Em Milão, o desejo volta a se fazer forma, mensurável, esculpida, quase clássica, nas salas do Palazzo Reale em Milão, onde a fotografia de Robert Mapplethorpe se reacende como uma pergunta que não deixa de arder: o que olhamos quando olhamos um corpo?
A grande mostra “Robert Mapplethorpe. As formas do desejo” acontece atè a 17 de maio de 2026.
Mapplethorpe não é um autor “confortável” nunca pretendeu ser.
Foi, antes de tudo, um diretor da luz: capaz de transformar a pele em mármore, o erotismo em gramática visual, a provocação em disciplina.
Em uma época em que a imagem é frequentemente consumo rápido, sua fotografia pede o contrário: tempo, silêncio, responsabilidade do olhar.
O coração da exposição milanesa, com curadoria de Denis Curti, coloca no centro a pesquisa estética de Mapplethorpe: uma tensão contínua entre opostos (sagrado e profano, mainstream e underground, controle e abandono) que se resolve em composições impecáveis, quase “olímpicas” em sua simetria.
Aqui, o desejo não é narrado como confissão sentimental, mas como construção: uma linguagem feita de contrastes nítidos, fundos essenciais, poses que parecem citar a estatuária e, um instante depois, desmenti-la com um detalhe desestabilizador. A fotografia torna-se um lugar onde a identidade não pede permissão nem busca ser “aceita”: ela existe, ponto.
Mapplethorpe foi amado e contestado, celebrado e censurado. Não pelo gosto da transgressão em si, mas porque levou ao museu, com uma qualidade formal quase clássica, temas que a sociedade tendia a relegar a outros espaços: sexualidade, poder, gênero, liberdade. Décadas depois, sua obra preserva a rara capacidade de nos fazer compreender algo simples e incômodo: o escândalo muitas vezes não está na imagem, mas nas regras não ditas com as quais aprendemos a olhar.
Não é um detalhe que a mostra integre a programação cultural ligada a Milano Cortina 2026. Em uma cidade que, nesses meses, multiplicará público e atenção internacional, Mapplethorpe surge como o contraponto perfeito. Onde o evento tende a celebrar, ele tende a questionar. Onde a vitrine pede consenso, ele pede consciência.
Por que visitar? Porque “As formas do desejo” não é apenas uma retrospectiva: é uma maneira de medir o quanto mudamos, ou não, diante de certas imagens. Mapplethorpe nos lembra que a beleza nem sempre é reconfortante e que a elegância pode ser uma lâmina: lúcida, precisa, impossível de ignorar.

