Quando se fala da origem do computador pessoal, a narrativa dominante costuma levar à Califórnia dos anos 1970, entre garagens e jovens engenheiros do Vale do Silício. A história real começa antes e em outro lugar: Ivrea, no Piemonte italiano.
Em 1965, a empresa italiana Olivetti apresentou ao mundo a Programma 101, considerada por muitos historiadores da tecnologia o primeiro computador pessoal da história. O projeto nasceu dentro dos laboratórios da empresa em Ivrea, sob a liderança do engenheiro Pier Giorgio Perotto.
O contexto era dominado pelos grandes mainframes. Computadores ocupavam salas inteiras, exigiam equipes especializadas e custavam milhões. A Programma 101 rompeu esse paradigma. Pela primeira vez, uma máquina de cálculo programável podia ser colocada sobre uma mesa de escritório e utilizada diretamente por uma pessoa.
O design compacto escondia uma inovação radical. A máquina possuía memória magnética, permitia programar operações matemáticas complexas e imprimia os resultados em papel. As instruções podiam ser gravadas em cartões magnéticos reutilizáveis, uma solução extremamente avançada para a época.
A apresentação oficial ocorreu em New York World’s Fair 1964–1965, onde o dispositivo despertou enorme curiosidade. A imprensa norte-americana apelidou o equipamento de “desktop computer”, termo que décadas depois se tornaria padrão na indústria.
Apesar de sua importância histórica, a Programma 101 ficou parcialmente fora da narrativa dominante da tecnologia. A ascensão das empresas do Vale do Silício e o sucesso comercial de máquinas posteriores, como o Apple II e o IBM PC, acabaram eclipsando o pioneirismo italiano.
Ainda assim, o impacto da máquina foi concreto. Mais de 40 mil unidades foram vendidas em todo o mundo. A NASA utilizou a Programma 101 para cálculos preliminares durante o programa Apollo Program.
Hoje, a Programma 101 é reconhecida como um marco do design industrial e da história da computação. Ela representa um momento singular em que engenharia, visão industrial e estética se encontraram em Ivrea, antecipando em quase uma década a revolução do computador pessoal.
A narrativa clássica da tecnologia gosta de garagens na Califórnia. O primeiro computador pessoal, porém, nasceu em um galpão industrial no Piemonte. Em 1965, a Olivetti mostrou ao mundo que o futuro da computação poderia caber sobre uma mesa.

