qua. mar 25th, 2026

O presepe italiano rumo ao patrimônio Unesco entre fé, arte e tradição artesã viva


O presépio, uma das expressões mais reconhecíveis da cultura italiana, deu um passo importante rumo ao reconhecimento global. Foi apresentada oficialmente em Paris a candidatura de “O presepe, das origens à tradição cultural e a arte de criá-lo” para a Lista do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da Unesco.

A iniciativa é liderada pela Itália, em colaboração com Espanha e Paraguai, e busca valorizar não apenas a representação do nascimento de Jesus, mas também o conjunto de saberes, técnicas artesanais e tradições transmitidas ao longo dos séculos. Mais do que um símbolo religioso, o presepe é entendido como um patrimônio vivo, capaz de conectar comunidades e atravessar fronteiras culturais.

A história do presepe remonta a 1223, quando São Francisco de Assis realizou, em Greccio, a primeira representação da Natividade. A ideia era simples e profundamente simbólica: tornar a cena do nascimento de Cristo mais próxima das pessoas, transformando-a em experiência coletiva.

A partir desse gesto, a tradição se difundiu por toda a Itália e, com o tempo, pelo mundo. O que começou como uma encenação religiosa se transformou em uma prática cultural complexa, que une espiritualidade, criatividade e identidade comunitária. A candidatura apresentada à Unesco pretende justamente reconhecer esse percurso, destacando o presepe como expressão que atravessa gerações e combina fé, arte e vida cotidiana.

Um dos pontos centrais do dossiê é a valorização do trabalho artesanal. A criação de presépios envolve técnicas que passam de mestre para aprendiz, de família para família, preservando materiais, estilos e formas de representação. Em cada peça, há mais do que estética: há memória. O presepe conta histórias, traduz costumes e reflete a forma como diferentes comunidades interpretam o mundo ao seu redor. É essa dimensão que sustenta a candidatura, que agora seguirá para avaliação técnica antes de uma possível decisão final prevista para dezembro de 2027.

Se há um lugar onde essa tradição ganha intensidade única, é Nápoles. Na cidade, o presepe não é apenas um elemento do Natal, mas parte da identidade cultural. Todos os anos, a partir de 8 de dezembro, data da Imaculada Conceição, famílias montam seus presépios em casa, mantendo uma prática que se consolidou especialmente a partir do século XVIII. Mas o que torna o presepe napolitano singular é sua capacidade de ir além da cena religiosa.

Ao lado da Sagrada Família, surgem personagens do cotidiano: vendedores, artesãos, músicos, figuras populares e até referências contemporâneas. O presépio se transforma, assim, em uma espécie de teatro em miniatura, onde o sagrado e o cotidiano convivem. Essa vocação se manifesta também no espaço urbano. O epicentro dessa cultura, porém, continua sendo a rua San Gregorio Armeno, conhecida como a “rua dos presépios”. Ali, dezenas de oficinas mantêm viva uma tradição secular, produzindo figuras e cenários que chegam a diferentes partes do mundo.

A candidatura à Unesco não busca apenas reconhecer o passado, mas também proteger o futuro dessa tradição. Em um contexto de mudanças culturais e sociais, o presepe continua a se reinventar, mantendo sua essência. Entre fé, arte e narrativa popular, ele segue sendo uma das formas mais completas de expressão da cultura italiana. E, se depender da candidatura, poderá em breve ser reconhecido oficialmente como patrimônio de toda a humanidade.

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