Maria Franca Ferrero morreu aos 87 anos, em sua casa em Alba, no Piemonte, a cidade onde nasceu e cresceu o império doce que conquistou o mundo. Viúva de Michele Ferrero, criador da lendária “supercrema” que daria origem à Nutella, ela havia sido nomeada, em 19 de dezembro passado, presidente honorária vitalícia da Ferrero International. Um gesto simbólico que selava uma vida inteira dedicada à empresa e à família.
Mas Maria Franca nunca foi a protagonista visível dessa história. Sua força era silenciosa. Nascida em Savigliano, em 21 de janeiro de 1939, estudou em colégio clássico e depois se especializou como intérprete em Milão. Em 1961, aos 22 anos, entrou na Ferrero como tradutora e intérprete, justamente quando a empresa começava a mirar a Europa. Michele repetia: “Se não formos alguém na Europa, não seremos nada nem na Itália”. Ela chegou nesse momento decisivo.
O encontro entre os dois foi, como ela mesma contou décadas depois, “amor à primeira vista”. Casaram-se em 1962. Em 1963 nasceu Pietro. Em 1964, Giovanni, que hoje preside o grupo. Ao lado do marido, Maria Franca acompanhou a transformação de uma empresa familiar de Alba em uma multinacional presente em mais de 170 países, com 36 fábricas e um faturamento que, no exercício 2024-2025, chegou a 19,3 bilhões de euros.
A Ferrero não é apenas uma companhia de chocolates. É uma parte da memória afetiva de gerações. Nutella nas manhãs de domingo, os ovos Kinder, os Ferrero Rocher em datas especiais, as pequenas Tic Tac no bolso. Esse universo doce nasceu de uma combinação rara de visão empresarial e valores familiares. E, segundo o próprio Michele, o equilíbrio vinha dela: “Se eu trabalhei e fiz muito, saibam que devo isso a ela”.
Maria Franca preferia os bastidores. Viveu longe dos holofotes, mesmo sendo listada entre as pessoas mais ricas da Itália, com patrimônio estimado em 2,4 bilhões de dólares segundo a Forbes. Após a morte de Pietro, em 2011, e de Michele, em 2015, manteve-se como referência moral da família, enquanto Giovanni assumia o comando e ampliava o grupo por meio de aquisições estratégicas.
Sob sua liderança, a Ferrero quase dobrou de tamanho desde 2015, alcançando 20,4 bilhões de dólares em receitas no ano encerrado em agosto de 2024, com EBITDA que passou de 1,6 para 3 bilhões de dólares. Nos últimos dez anos, foram mais de
13 bilhões de dólares investidos na compra de 21 empresas em nove países, incluindo operações da Nestlé nos Estados Unidos, marcas da Kellogg e a WK Kellogg.
Ainda assim, a história de Maria Franca não se mede em cifras. Ela presidiu a Fondazione Ferrero, criada em 1983 com o lema “Trabalhar, criar, doar”, e manteve projetos voltados a ex-funcionários e iniciativas sociais em países como Índia, África do Sul e Camarões. Recebeu o prêmio da National Italian American Foundation e, em 2024, foi agraciada com o título de Cavaleira da
Grande Cruz da República Italiana.
Deixa o filho Giovanni, as noras Paola e Luisa e cinco netos. Deixa também o fim de uma geração marcada pela discrição piemontesa, pelo lema quase secreto de Michele – “Dìsilu a niun”, não conte a ninguém – e por uma visão de empresa que
misturava fé, trabalho e responsabilidade social.
Na mesa do café da manhã, a Nutella continuará ali. Mas para Alba, para a Itália e para quem cresceu com o sabor desses chocolates, a partida de Maria Franca Ferrero encerra um capítulo de uma história em que o doce sempre teve um fundo de família.
Morre Maria Franca Ferrero, guardiã discreta do império da Nutella

