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Milano-Cortina 2026, todo mundo enlouquecendo pelo curling: por que o “jogo ruidoso” não é brincadeira

PorFrancesco Sibilla

11/02/2026

No começo você assiste com um sorriso irônico. Pedras deslizando devagar, vassouras agitadas com uma seriedade quase engraçada. Depois algo muda. O som. O silêncio. A tensão que cresce centímetro por centímetro. E então você entende por que, nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milano-Cortina 2026, o curling está conquistando até quem jurava detestá-lo

Chamam de the roaring game, o jogo que ruge. Não pelo público, não pelos gritos, mas pelo som grave e hipnótico que a pedra produz ao deslizar sobre o gelo preparado com pebble, pequenas gotas de água congelada. Ao vivo, você sente no corpo antes mesmo de ouvir. É um som que não pede atenção: ele toma.

O curling nasce longe do esporte-espetáculo moderno. Escócia, século XVI. Lagos congelados, invernos rigorosos, comunidades pequenas. A pedra mais antiga datada, de 1511, conta uma história mais velha do que muitos esportes considerados tradicionais. Ainda assim, o curling só virou esporte olímpico em 1998, como se sempre tivesse o hábito de chegar tarde e marcar profundamente.

As pedras, todas aparentemente iguais, não são. Quase todas vêm de Ailsa Craig, uma ilha desabitada da Escócia onde se extrai um granito raríssimo, impermeável e extremamente resistente. Tão raro que uma única pedra pode custar mais de mil euros e que as reservas realmente podem acabar no futuro. Cada stone pesa quase vinte quilos, mas no gelo parece viva, capaz de obedecer ou trair quem a lança.

Mas o curling não é só tradição e silêncio. Também é rebeldia. Em 1980, um canadense chamado Paul Gowsell entrou para a lenda como “Pizza Paul”: pediu duas pizzas gigantes durante uma partida importante, levou para o gelo e comeu com o time enquanto os adversários jogavam. Punk-rock em estado puro num esporte associado à compostura absoluta.

Essa compostura tem nome: Spirit of Curling. Aqui não se comemora o erro do outro, não se corre atrás do árbitro. Se você erra, admite. Se toca na pedra, aceita a penalidade. Uma utopia esportiva que, surpreendentemente, ainda funciona.

Nem sempre, porém, tecnologia e ética caminham juntas. Entre 2014 e 2015 explode o Broomgate: vassouras capazes de modificar demais o gelo e praticamente “dirigir” a pedra. Testes secretos, acusações, mudança global de regras. O curling nunca mais seria o mesmo.

E se hoje ele parece elegante, vale lembrar que no início, no Canadá, as pedras eram de ferro, pesavam até quarenta quilos e lembravam um bule de chá. Não havia delicadeza, só força bruta.

Até hoje a ciência debate por que a pedra curva. Atrito, rotação, temperatura. A vassoura não limpa: ela aquece. E esse calor invisível decide partidas, medalhas e histórias.

Talvez por isso o curling tenha conquistado fãs improváveis. George Clooney virou apaixonado assistindo a partidas no Canadá. Mr. T declarou sua admiração. Kate Middleton e Príncipe William já experimentaram o esporte em visitas oficiais. Na Itália, o ouro histórico de Stefania Constantini e Amos Mosaner em Pequim 2022 mudou tudo: o curling deixou de ser exótico e virou assunto nacional.

E o Brasil? Sim, o curling também chegou aos trópicos

Pode soar improvável, mas o curling também existe no Brasil e não apenas como curiosidade. O país possui uma Seleção Brasileira de Curling, oficialmente reconhecida pela World Curling Federation, que participa de competições internacionais no circuito das Américas.

Sem gelo natural e sem pistas específicas no território nacional, os atletas brasileiros treinam quase sempre fora do país, principalmente no Canadá e nos Estados Unidos. Durante anos, a seleção manteve sua base em clubes canadenses, num tipo de “exílio esportivo” necessário para competir em alto nível. Poucos esportes representam tão bem essa contradição brasileira: uma modalidade de inverno praticada por atletas formados longe do inverno.

O curling começou a ganhar forma no Brasil no início dos anos 2000, impulsionado por brasileiros que viviam no exterior e trouxeram o esporte na bagagem. A Confederação Brasileira de Desportos no Gelo passou então a estruturar a modalidade, organizando participações continentais e projetos de longo prazo.

Curiosamente, o curling acabou virando símbolo de um Brasil pouco óbvio: enquanto o país é associado ao calor, ao futebol e à improvisação, o curling brasileiro fala de disciplina, paciência e estratégia. Um esporte silencioso, praticado por um país barulhento e talvez exatamente por isso tão fascinante.

Para completar, a regra da five-rock free guard zone tornou o jogo mais ofensivo, arriscado e imprevisível. O curling decidiu parar de pedir desculpas por ser intenso.

No fim, talvez seja isso. Por trás da aparente lentidão, o curling não quer entreter: quer desafiar. A paciência, a atenção, o detalhe. Ele ruge baixo mas quando você escuta, não consegue mais ignorar.

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