Viver além dos 100 anos sempre pareceu exceção. Hoje, Brasil e Itália mostram que a longevidade pode nascer de trajetórias muito diferentes e, ainda assim, igualmente fascinantes. De um lado, a Itália, país que envelhece bem, sustentado por hábitos cotidianos, laços sociais e uma cultura da saúde construída ao longo de gerações. Do outro, o Brasil, que não integra as famosas Blue Zones, mas guarda um tesouro silencioso: a maior diversidade genética do mundo, capaz de revelar novos segredos sobre a resistência do corpo humano ao tempo.
No Brasil, pesquisadores da Universidade de São Paulo acompanham uma coorte única de mais de 160 centenários, entre eles 20 supercentenários, pessoas que ultrapassaram os 110 anos. Três dos dez homens mais longevos do planeta são brasileiros, incluindo o homem mais velho vivo, nascido em 1912. O dado chama atenção porque muitos desses longevos vivem em regiões pobres, com acesso limitado à saúde, oferecendo à ciência a rara oportunidade de observar a longevidade para além da medicina tradicional.
A história genética do Brasil ajuda a explicar o fenômeno. Colonização portuguesa, migração forçada de milhões de africanos, imigração europeia e japonesa formaram uma população altamente miscigenada. Estudos já identificaram milhões de variantes genéticas inéditas, ausentes nos grandes bancos de dados globais. Em alguns supercentenários, os linfócitos mantêm atividade semelhante à de adultos jovens e os mecanismos de autofagia seguem altamente funcionais. Não se trata de ausência de envelhecimento, mas de resiliência biológica.
Essa força ficou evidente durante a pandemia. Supercentenários brasileiros sobreviveram à Covid antes mesmo da existência de vacinas, desenvolvendo respostas imunológicas eficazes contra um vírus que matou milhões de pessoas mais jovens. Muitos seguem lúcidos, independentes e ativos. Há casos quase poéticos, como famílias inteiras de longevos, em que netos centenários convivem com avós supercentenárias.
Na Itália, o cenário é outro, mas o resultado é igualmente impressionante. O país bateu recorde em 2025, com 23.548 centenários, mais que o dobro do registrado em 2009. A longevidade italiana se apoia menos na diversidade genética extrema e mais em um conjunto de fatores culturais: dieta mediterrânea, vida social intensa, rotina ativa, cidades caminháveis e um sistema de saúde preventivo. Regiões como a Sardenha, parte das Blue Zones, concentram famílias inteiras que atravessam o século com relativa facilidade.
Enquanto o Brasil ajuda a ciência a responder por que alguns corpos resistem tanto, a Itália mostra como o cotidiano pode favorecer uma vida longa e saudável. Para milhões de ítalo-brasileiros, essa comparação tem um sabor especial. Entre genética, cultura e afeto, Brasil e Itália se encontram na mesma pergunta essencial: não apenas quanto viver, mas como viver bem por mais tempo.
Longevidade no Brasil e na Itália: dois caminhos para passar dos 100 anos, entre genética e cultura

