A mudança no comando da Dolce & Gabbana marca um dos momentos mais delicados da história recente da maison, suspensa entre a continuidade criativa e a necessidade de reforço gerencial.
A renúncia de Stefano Gabbana ao cargo de presidente remonta a dezembro de 2025, mas só foi tornada pública no mês de abril de 2026. Um timing que não parece casual. A escolha de comunicar meses depois, sugere uma estratégia precisa: evitar impactos imediatos no mercado e gerir internamente a transição antes de expô-la à opinião pública e aos stakeholders.
Gabbana não sai de cena. Permanece como cofundador, acionista e, sobretudo, co-diretor criativo ao lado de Domenico Dolce. Sua influência sobre a identidade estética da marca continua intacta. Muda o perímetro do poder, não a assinatura estilística.
Alfonso Dolce assume a presidência: governança familiar, abordagem industrial
A presidência passa para Alfonso Dolce, figura-chave na estrutura da empresa e já diretor executivo do grupo. O irmão de Domenico, representa a continuidade familiar com uma visão mais orientada à gestão industrial.
Sua nomeação consolida um modelo típico das grandes maisons italianas: controle criativo nas mãos dos fundadores, disciplina gerencial confiada a uma governança interna. Em um momento de pressão financeira, essa escolha busca fortalecer a coordenação entre visão e sustentabilidade econômica.
A chegada de Stefano Cantino: o sinal ao mercado
Já a contratação de Stefano Cantino, com passagem pela Gucci, representa o verdadeiro sinal de descontinuidade. Não é apenas um reforço operacional. É uma mensagem ao mercado.
Cantino traz competências desenvolvidas em um grupo que transformou a gestão e a expansão global em um case de referência. Sua chegada indica a intenção de estruturar ainda mais a marca, melhorar o desempenho e enfrentar com ferramentas mais sofisticadas a concorrência no mercado internacional de luxo.
A mudança de governança ocorre em um momento em que se discute uma possível reestruturação da dívida da empresa. Um fator que explica a urgência em reforçar a gestão e redefinir os equilíbrios internos.
A Dolce & Gabbana permanece uma empresa independente, não controlada por grandes conglomerados como LVMH ou Kering. Isso garante liberdade criativa, mas também a expõe mais às tensões financeiras e às dinâmicas cíclicas do mercado.
Continuidade criativa, descontinuidade estratégica
O ponto central não é a saída de Stefano Gabbana da presidência. É a redefinição do modelo de governança. De um lado, a maison preserva o DNA estilístico baseado em estética barroca, identidade mediterrânea e narrativa familiar. De outro, introduz uma estrutura mais sólida para enfrentar uma fase econômica complexa.
Em síntese, a Dolce & Gabbana busca um equilíbrio que muitas maisons independentes tentam alcançar: manter a alma criativa dos fundadores sem abrir mão de uma gestão capaz de sustentar crescimento, rentabilidade e resiliência financeira.
O verdadeiro teste virá nos próximos 12 a 24 meses. Não nas passarelas, onde a marca já possui uma voz reconhecível. Mas nos números.

