qua. abr 1st, 2026

Cresce o número de pessoas em situação de rua na Itália e expõe desafios sociais


Mais de 10 mil pessoas vivem hoje sem moradia nas grandes cidades italianas. O dado, divulgado pelo instituto nacional de estatística (Istat), traça um retrato direto e pouco visível de uma realidade que atravessa centros urbanos historicamente associados à qualidade de vida e ao patrimônio cultural.

O levantamento, realizado em uma única noite de inverno em 14 cidades metropolitanas, identificou 10.037 pessoas sem teto, das quais 44,6% vivem nas ruas e 55,4% estão em abrigos noturnos . Um número que, para efeito de comparação, equivale à população de pequenas cidades italianas.

A maior concentração está em Roma, com 2.621 pessoas, seguida por Milão (1.641), Turim (1.036) e Nápoles (1.029). Em muitas dessas cidades, a imagem de monumentos históricos e turismo convive com uma realidade silenciosa, feita de improviso e precariedade.

Quase metade dos que vivem nas ruas dorme em espaços públicos sem qualquer abrigo. Outros encontram refúgio em locais improvisados, como marquises, estações ou passagens subterrâneas. Ao mesmo tempo, os abrigos existentes não conseguem absorver toda a demanda: há cerca de 6.600 vagas disponíveis, número inferior ao total de pessoas sem moradia.

O perfil também revela um dado importante. A maioria é composta por homens, mas há presença crescente de estrangeiros, que representam mais de dois terços dos casos tanto nas ruas quanto nas estruturas de acolhimento.

Embora os números italianos chamem atenção, o fenômeno é ainda mais amplo no Brasil. Segundo estimativas recentes, o país já supera 300 mil pessoas em situação de rua, com forte concentração nas grandes capitais.

Em São Paulo, maior cidade do país, esse número ultrapassa 80 mil pessoas. No Rio de Janeiro, são mais de 20 mil, enquanto cidades como Belo Horizonte e Salvador também registram crescimentos constantes ao longo dos últimos anos.

Assim como na Itália, o perfil é majoritariamente masculino e adulto, mas com aumento de jovens e famílias em situação de vulnerabilidade. A diferença está na escala: no Brasil, a questão assume dimensões estruturais, ligadas à desigualdade social, ao acesso à moradia e ao mercado de trabalho.

Nos dois países, o crescimento do número de pessoas sem moradia está ligado a fatores semelhantes: aumento do custo de vida, dificuldades de acesso à habitação e fragilidade de políticas públicas em momentos de crise.

Na Itália, a presença significativa de estrangeiros aponta também para o impacto dos fluxos migratórios e da integração social. Já no Brasil, a informalidade e a desigualdade ampliam a vulnerabilidade de parcelas maiores da população.

O levantamento do Istat faz parte de uma estratégia mais ampla para monitorar a chamada “marginalidade extrema” e orientar políticas públicas mais eficazes. Mais de 6 mil voluntários participaram da contagem, evidenciando a complexidade de mapear um fenômeno que, por definição, tende a escapar das estatísticas.

Se na Itália os números ainda parecem relativamente contidos, o crescimento recente acende um sinal de alerta. E, ao ser colocado ao lado da realidade brasileira, revela um ponto em comum: a dificuldade de garantir algo básico, mas essencial, que é o direito à moradia.

Entre cidades históricas e metrópoles contemporâneas, os chamados “invisíveis” continuam a existir à margem, lembrando que o desenvolvimento econômico nem sempre caminha no mesmo ritmo da inclusão social.

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