Cortina não se tornou elegante. Ela sempre foi. Antes da moda, antes das redes sociais, antes mesmo de a palavra “luxo” se transformar em um rótulo inflacionado. Cortina d’Ampezzo é um hábito antigo da Itália que gosta de viajar bem, se vestir melhor e escolher lugares que não precisam ser justificados. Aqui, o prestígio não se exibe: se respira.
Quando em 1956 sediou os Jogos Olímpicos de Inverno, o mundo percebeu aquilo que os italianos já sabiam. Cortina não era apenas uma estação de montanha, mas um destino cultural, um salão alpino incrustado entre alguns dos picos mais espetaculares do planeta. As Dolomitas, com as Tofane, o Cristallo, o Faloria e as Cinque Torri, não servem de cenário: dominam a cena, esculpem-na todos os dias com uma luz mutável, precisa, teatral, nunca banal.
No século XIX, era pouco mais do que um vilarejo isolado, um punhado de casas entre o Cadore e o Val Pusteria. Depois vieram as ferrovias, os viajantes ingleses e alemães, o gosto pela altitude como experiência estética. Cortina começou a mudar de pele sem perder a alma. Nunca cresceu demais: tornou-se desejável.
A verdadeira virada acontece entre as décadas de 1960 e 1970. É a época em que a Rainha das Dolomitas se transforma na capital não oficial da Dolce Vita alpina. Em suas pistas esquiam membros da realeza, estrelas do cinema, mitos do esporte. As ruas se enchem de conversíveis, as terrazas de champagne, as noites de histórias que viram lenda. Marcello Mastroianni e Faye Dunaway cruzam o Passo Falzarego em Amanti, de Vittorio De Sica. Blake Edwards escolhe Cortina para A Pantera Cor-de-Rosa, trazendo David Niven, Peter Sellers e Claudia Cardinale. Chega Frank Sinatra, depois Roger Moore com seu James Bond. Cortina entra no cinema, nas colunas sociais, no imaginário coletivo.
É um mundo de elegância descontraída, de liberdade vivida com naturalidade. No Corso Italia desfilam sobrenomes que contam uma época: Fürstenberg, Liechtenstein, Agnelli, Benetton, Marzotto. Os bares viram observatórios privilegiados, as boutiques pequenas catedrais do estilo. O Grand Hotel Savoia e o Grand Hotel Ampezzo recebem reis e celebridades como hóspedes habituais. O Hotel Cristallo, hoje em restyling para renascer como Mandarin Oriental, torna-se o templo da noite graças ao Monkey Club, ao lado do Ski Club 18, do Belvedere, do Vip e do Bilbò Club. Lugares que não precisavam de publicidade: bastava estar lá.
Hoje Cortina continua sendo Cortina. Mudou o ritmo, não o caráter. Ao lado da alma esportiva ainda central, especialmente à vista dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026 segue exibindo uma mundanidade refinada, jamais barulhenta. Os après-ski ao sol convivem com clubes onde a noite se estende, os restaurantes históricos dialogam com uma nova cozinha autoral, os chalés exclusivos se alternam com hotéis de luxo que definem um estilo de hospitalidade italiana reconhecido no mundo inteiro.
A chegada dos Jogos não criou o valor apenas o revelou. Investidores italianos, famílias históricas e compradores internacionais voltaram o olhar para Cortina não como uma aposta especulativa, mas como um ativo patrimonial de longo prazo. Aqui, comprar uma casa não significa entrar em um mercado: significa entrar em um sistema fechado, onde a oferta é mínima, a demanda é seletiva e o prestígio se transmite no tempo.
O resultado é um mercado onde os preços cresceram, mas sobretudo se consolidaram. Chalés históricos, apartamentos no centro, residências com vista para as Dolomitas tornaram-se bens altamente disputados, protegidos não apenas pelo valor econômico, mas pelo valor simbólico de pertencer a um lugar que não se replica. Cortina não se copia. Não se amplia. Não se democratiza.
Essa valorização não altera a identidade da cidade a reforça. Porque aqui o luxo nunca foi volume, mas contenção. Nunca foi acesso ilimitado, mas escolha. As Olimpíadas de 2026 funcionam como uma lente de aumento sobre aquilo que Cortina sempre foi: um território onde o tempo, o espaço e o estilo têm preço alto justamente porque são finitos.
Investir em Cortina, hoje, é um gesto coerente com a sua história. Não é comprar o futuro: é garantir permanência. Em um mundo que muda rápido demais, a Regina das Dolomitas continua oferecendo o bene più raro de todos a continuità.
Entrar no Hotel de Len ou no Ancora Cortina, assinado por Renzo Rosso e administrado pela família Melpignano, de Borgo Egnazia, é entender que aqui o luxo nunca se separa do calor humano. O Hotel de la Poste permanece um ponto de referência há gerações: Gherardo Manaigo recebe os hóspedes com seu Gin Cortina, feito à base de ervas e frutos da região, muito apreciado também por nomes como John Malkovich e Michelle Pfeiffer. À mesa, o lendário Toulà, relançado pelo chef Max Alajmo, convive com o San Brite, estrela verde Michelin, manifesto de uma cozinha que dialoga com a natureza.
Cortina também é memória coletiva. Vacanze di Natale não é apenas um filme cult: é o retrato de uma nova burguesia italiana conquistando o mito da dolce vita alpina, entre locais elegantes, Ferraris estacionadas com displicência e noites que pareciam não ter fim. E, ainda assim, sob essa camada, Cortina sempre preservou uma elegância low profile, feita de caminhadas lentas, trajes tradicionais, silêncios que valem tanto quanto uma festa.
Hoje como ontem, Cortina continua sendo uma escolha. Não para quem quer aparecer, mas para quem reconhece o valor do tempo, da paisagem, do estilo vivido sem ruído. As Dolomitas seguem vigiando a concha, imutáveis e severas. O resto muda, se renova, se prepara para o futuro. Mas Cortina não. Cortina continua simplesmente sendo aquilo que sempre foi: o lugar onde o luxo italiano aprendeu a viver na montanha sem jamais perder a graça.

