ter. fev 24th, 2026

Cinco estátuas imperdíveis em Roma com histórias que parecem inventadas (mas não são)

Roma não é uma cidade.
Roma é um gigantesco arquivo emocional a céu aberto.

Você caminha, levanta os olhos, cruza com uma estátua. E, sem perceber, acabou de esbarrar em séculos de ironia, vinganças silenciosas, erros monumentais, relâmpagos, fogueiras, papas furiosos e artistas com o ego ferido.

Porque em Roma até as estátuas têm personalidade.

Pasquino, a estátua que insultava os poderosos

A poucos passos da Piazza Navona, numa pequena praça que muitos atravessam sem prestar muita atenção, vive um dos personagens mais irreverentes da cidade.

Pasquino não é apenas uma estátua.
É uma tradição, uma atitude, quase um esporte romano.

Desde o século XVI, os cidadãos colavam versos satíricos contra papas, nobres e governantes. Não eram ataques raivosos, mas críticas afiadas em forma de poesia. As célebres pasquinadas.

O detalhe mais delicioso?
Os poderosos realmente odiavam aquilo.

O papa Adriano VI chegou a cogitar jogar a estátua no rio Tibre.
O papa Bento XIII ameaçou até pena de morte para os autores.

Uma estátua capaz de incomodar o poder.

E pensar que Pasquino, originalmente, era apenas um fragmento helenístico encontrado por acaso em 1501. Roma faz isso como ninguém: transforma qualquer pedaço de pedra em voz pública.

O Pulcin da Minerva e a vingança mais elegante de Bernini

Na Piazza della Minerva há um elefante.
Pequeno, simpático, aparentemente inofensivo.

Só que não.

O elefantinho desenhado por Gian Lorenzo Bernini é uma das mais refinadas provocações artísticas da história romana.

Os frades dominicanos criticaram o projeto.
Bernini respondeu sem dizer uma única palavra.

Segundo a tradição e em Roma as tradições valem quase como documentos oficiais o elefante mostra discretamente o traseiro em direção ao convento. Uma pose calculada. Uma resposta esculpida em mármore.

Os romanos, claro, entenderam o recado na hora.

E há ainda o apelido irresistível: Pulcin da Minerva. Porque, convenhamos, o elefante parece mais um porquinho charmoso do que um animal monumental.

Roma não julga. Roma apelida.

Giordano Bruno, o olhar que nunca se abaixa

No Campo de’ Fiori há uma presença impossível de ignorar.

O capuz.
O olhar severo.
A expressão de quem não tem nenhuma intenção de pedir desculpas.

A estátua de Giordano Bruno não é apenas um monumento. É quase um manifesto político em bronze.

Criada por Ettore Ferrari em 1889, nasceu em meio a uma Itália recém-unificada e profundamente dividida. Liberais contra clericais. Estado contra Igreja.

As reações foram intensas.
O papa Leão XIII protestou em jejum.

E Bruno permanece ali até hoje. Imóvel. Com aquele silêncio pesado que parece dizer muito mais do que qualquer discurso.

Não grita.
Não acusa.
Mas seu olhar continua carregado de significado.

Marco Aurélio, salvo por um erro histórico colossal


Existem obras preservadas graças ao talento humano.
E depois há Marco Aurélio, salvo por um equívoco monumental.
Durante séculos, acreditou-se que a estátua representava o imperador Constantino. Cristão. Intocável.
Resultado?
Jamais foi derretida.
Um erro de identificação que salvou uma das mais extraordinárias esculturas em bronze da antiguidade. A única estátua equestre romana que chegou praticamente intacta até os dias de hoje.

Quando a verdade veio à tona, no século XV, já era tarde demais para qualquer sabotagem.

Hoje ela reina na Piazza del Campidoglio com a serenidade típica de quem enganou a própria história.
O Anjo de Castel Sant’Angelo e a estátua mais azarada de Roma
Se existisse um ranking de azar monumental, esta obra venceria sem dificuldade.
O anjo de Castel Sant’Angelo já foi:
queimado, destruído, atingido por relâmpagos, derretido, reconstruído, substituído.
Madeira consumida pelo tempo.
Mármore arrasado em conflitos.
Bronze transformado em canhões.
Uma sequência quase absurda de tragédias escultóricas.
E ainda assim, o símbolo permanece poderoso: o arcanjo que, segundo a tradição, apareceu durante a peste de 590 anunciando o fim da epidemia.
Roma pode destruir tudo.
Mas certos símbolos sempre encontram um jeito de voltar.
Roma tem esse talento raro.
Transforma estátuas em personagens, artistas em protagonistas de fofocas históricas, erros em milagres, provocações em detalhes arquitetônicos.

Caminhar por Roma não é apenas turismo.

É atravessar uma cidade onde até o mármore parece ter algo a dizer.

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