O Parque Arqueológico do Coliseu reabre uma porta que por séculos permaneceu entreaberta, quase tímida, no coração estratificado do Palatino. É a Casa dos Grifos, um dos lugares mais fascinantes e “secretos” da Roma mais antiga: uma residência aristocrática que narra o exato momento em que a cidade deixa de ser apenas republicana e começa a se transformar na capital imperial que conhecemos.
Quem entra hoje na Casa dos Grifos não encontra simplesmente alguns cômodos: encontra uma Roma privada, doméstica, elegante. Uma Roma feita de paredes decoradas, silêncios, luz recortada por aberturas antigas e detalhes que parecem ter sobrevivido justamente para falar conosco.
Um nome que evoca poder e beleza
O nome “Casa dos Grifos” nasce de um elemento icônico e imediatamente reconhecível: os grifos, criaturas mitológicas metade águia e metade leão, símbolos de proteção e autoridade. Não é apenas um capricho decorativo: numa casa como esta, os símbolos importam. Eles dizem quem você é, o que deseja representar, qual imagem quer deixar na memória dos outros.
Estamos no Palatino, a colina mais política e simbólica de Roma: o lugar onde nasceria a própria ideia de “palácio” como sede do poder. E aqui, entre jardins, encostas e residências de elite, esta domus surge como um fragmento precioso de uma época de transição.
Uma domus que revela a Roma antes dos imperadores
A Casa dos Grifos pode ser datada entre o final do século II e o século I a.C., um período decisivo: a República ainda está formalmente viva, mas as tensões sociais e políticas já estão preparando o terreno para as grandes figuras que mudariam tudo.
E é exatamente isso que torna a visita quase cinematográfica: a sensação de observar Roma no seu “antes”, antes das enormes arquiteturas celebrativas, antes da propaganda monumental, antes da cidade dominada pela pedra do poder imperial.
Aqui, ao contrário, domina a sofisticação do interior: paredes pintadas, perspectivas ilusionistas, geometrias e figuras que não precisam gritar. É um luxo culto, discreto, feito para quem sabe reconhecê-lo.
A emoção de entrar numa casa “de verdade”
O Coliseu e o Fórum contam a Roma pública: a arena, a lei, a multidão, a glória.
A Casa dos Grifos conta o contrário: a Roma da intimidade.
É a Roma de quem circulava longe das massas, entre corredores e salas decoradas, entre recepções selecionadas e conversas decisivas. Porque, muitas vezes, em Roma, a história não se escreveu apenas nas praças: escreveu-se também dentro das casas.
E a reabertura ao público permite finalmente olhar Roma não apenas como “cidade-museu”, mas como cidade habitada, onde os espaços tinham cheiro, som, presença.
Um gesto cultural: devolver complexidade à cidade eterna
Abrir a Casa dos Grifos significa também realizar uma operação cultural importante: valorizar uma Roma menos conhecida e mais estratificada, feita de micro-lugares que iluminam de modo poderoso as grandes narrativas.
O Parque Arqueológico do Coliseu, nesse sentido, não se limita a conservar: escolhe reativar. Colocar novamente em circulação beleza e conhecimento. E fazê-lo num lugar que não é imediato, não é “de cartão-postal”, mas é profundamente romano: escondido, complexo, surpreendente.
A Casa dos Grifos hoje: o Palatino que fala baixo
Visitar este espaço é uma experiência diferente do restante do percurso monumental. É mais lenta. Mais íntima. Mais “para ouvir”.
É como se o Palatino, em vez de se mostrar com toda a sua solenidade, decidisse por um instante falar em voz baixa.
E nesse momento, enquanto o olhar acompanha os detalhes das decorações e imagina os passos dos antigos proprietários, acontece algo raro: Roma deixa de ser um ícone imóvel e volta a ser uma presença viva, frágil e grandiosa ao mesmo tempo.
A Casa dos Grifos não é apenas uma reabertura.
É um convite para entrar na história pela porta mais difícil e mais bonita: a do cotidiano.

