seg. fev 23rd, 2026

Budelli: a praia rosa que não existe em nenhum outro lugar

Não é uma praia. É um limite.
Budelli não convida, não acolhe, não permite. Deixa-se observar à distância, como fazem as coisas frágeis quando aprendem que a beleza, se tocada demais, se consome. No extremo norte da Sardenha, próxima às Bocche di Bonifacio, esta pequena ilha tornou-se um dos símbolos mais poderosos do Parco Nazionale dell’Arcipelago di La Maddalena, não pelo que oferece, mas pelo que nega.

A Spiaggia Rosa é o seu centro vital. Pode ser observada da Spiaggia del Cavaliere ou de Cala di Roto, ou ainda do mar, sempre acompanhado por guias autorizados do parque. Sem desembarcar. Sem tocar. Sem deixar pegadas. E é justamente essa distância obrigatória que a torna inesquecível.

A cor não é artifício. Não é reflexo, nem ilusão óptica. É vida sedimentada ao longo do tempo. A areia deve o seu tom rosado a fragmentos microscópicos de coral, granito, conchas e cascas de moluscos, mas sobretudo a um microrganismo que vive nas pradarias de posidônia e dentro das conchas. Quando morre, o mar completa o ciclo. Água e vento fragmentam, transportam, depositam. E a margem muda de cor.

No século XX, esse equilíbrio foi rompido. Ancoragens indiscriminadas, agitação irregular do mar e saques ilegais de areia fizeram a posidônia recuar e a praia perder cor. O rosa estava desaparecendo. Em 1998 veio a virada: proteção integral. Proibidos o desembarque, o banho e a ancoragem. Nem por alguns minutos. Nem “só para uma foto”.

Hoje, as regras são rigorosas. É proibido pisar na Spiaggia Rosa, nadar, ancorar embarcações ou recolher até mesmo um único grão de areia. As multas podem ultrapassar 3.000 euros, com apreensão da embarcação nos casos mais graves. Não é severidade. É memória. Porque cada grão retirado é uma ferida que leva décadas para cicatrizar.

Budelli é uma ilha privada apenas por um detalhe jurídico do passado. Desde 2016, passou definitivamente ao patrimônio público, após a tentativa frustrada de compra por um magnata estrangeiro que gerou forte reação popular. Hoje é uma oásis integral: 25 hectares de natureza intacta, 12 quilômetros de costa, um único habitante. O guardião. Uma figura quase mítica, encarregada de vigiar um lugar que não admite distrações.

Do monte Budello, com apenas 87 metros de altura, a vista é absoluta. Falésias graníticas que escondem enseadas invisíveis, vegetação mediterrânea moldada pelo vento e pelo sal, um mar que transita do turquesa ao azul profundo sem pedir licença. Aqui, a paisagem não é decorativa. Ela impõe ritmo.

Budelli também se tornou cinema, sem procurar isso. Em 1964, Michelangelo Antonioni escolheu estes cenários para algumas cenas de Deserto Rosso. Sua visão industrial e alienada encontrou, paradoxalmente, um contraponto poderoso justamente aqui, onde o ser humano parece sempre fora de escala diante da natureza.

Ao redor, o arquipélago multiplica maravilhas. Cala Coticcio em Caprera, os fortes de Santo Stefano, Cala Corsara em Spargi, as praias claras de La Maddalena. Debaixo d’água, o santuário dos cetáceos abriga golfinhos, cachalotes e baleias. Entre Budelli e Spargi, a secca di Washington é um mosaico submerso de blocos graníticos e gorgônias vermelhas, um dos cenários de mergulho mais espetaculares do Mediterrâneo.

Visitar Budelli significa aceitar um limite. Entender que nem tudo está disponível, nem tudo é acessível, nem tudo pode ser vivido de perto. Alguns lugares existem para nos lembrar que a beleza não é consumo, mas equilíbrio. E que, às vezes, a melhor forma de preservá-la é manter distância.

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